Dois dedos de prosa sobre o Los Cuecas e iniciativas voltadas ao aprimoramento do masculino


A história, pra quem não acompanhou, é a seguinte: um grupo de homens decidiu se reunir e ajudar outros homens a se tornarem mais homens, ensinar tudo o que todo homem deveria nascer sabendo, mas não sabem.


O problema: ser mais homem, segundo esses homens, era saber fazer churrasco, jogar sinuca, manjar de drinks, poker e fotografia.

A coisa desdobrou de um jeito bem interessante. Ao invés de chamar atenção dos homens que gostariam de ser ases da masculinidade, o post atraiu mulheres ridicularizando a iniciativa. Depois, eles deletaram o tal post e não especificaram se o curso continua ou não.

Confesso que eu gostei e me diverti com a espirituosidade das moças, mas à parte da “zoeira” e do pânico e frustração de muitos homens que resolveram entrar no embate pelos comentários, vale olhar um pouco mais a fundo o evento.

Antes de mais nada, não acho que seja errado ensinar a quem quer que seja qualquer um desses itens. Eu não sei jogar nem porrinha, não sei preparar drinks e fotografo pra lá de meia boca. Gostaria muito de saber essas coisas e compreendo o papel que elas possam ter como lubrificante social.

Porém, isso ser usado como base do entendimento do que é ser homem é extremamente limitado.

Mais do que isso, é uma violência no sentido de encaixotar e limitar o espectro de masculinidade a essa meia dúzia de hobbies e também por partir do pressuposto de que, diante da aparente confusão dos homens sobre seu papel no mundo de hoje, o que precisamos é de um resgate, um retorno às origens, quando homens faziam coisas de homem.

A real é que esses antigos valores estão lentamente e progressivamente caindo por um motivo: eles não dão mais conta de explicar e abarcar a complexidade dos indivíduos e a forma como eles compreendem seus papeis de gênero.


Nota importante: Sei que argumentar pela comparação costuma gerar problemas. Então, com o que vou falar aqui embaixo, não quero dizer que as mulheres são melhores que os homens, nem que todos os homens são seres limitados e burros. Também não quero diminuir ou negar os problemas femininos, nem vitimizar homens, muito menos dizer que a absoluta totalidade das pessoas de um gênero ou de outro sejam qualquer coisa, nada disso.

Somos crescidos e já está na hora de sabermos conversar sem partir pra extremos argumentativos que só dificultam o papo. Então, ressalvas feitas, vamos lá.


As mulheres estão se articulando de maneira fantástica. Não participo, mas observo de longe grupos de estudo e amigas feministas que estão desconstruindo o sistema inteiro, colocando novas fundações em como são vistas e como querem ser olhadas pelo mundo. Elas se posicionam a lutar por seus direitos e impedir mais opressão. E quando algo sai torto, simplificando-as e limitando-as, elas conseguem se manifestar de forma que tende a torná-las, cada vez mais, uma voz impossível de ser silenciada. (Ainda bem!)

Quanto aos homens, a confusão é tão grande que, ao invés de se expandir, questionar e desconstruir, para ressurgir mais fortes (outra nota importante: não num sentido de competição e guerra dos sexos, me refiro à questão pessoal, de amadurecimento da identidade), muitos se orgulham daquilo que os simplifica, como quem se agarra cegamente ao mastro do navio que está afundando.

Basta ver o teor dos nossos encontros. Nós jogamos bola, mas se é pra ver um filme, não assistimos nada que não seja sobre super-heróis. Nós tomamos cerveja, mas nunca falamos sério de nada que nos faça parecer fracos. Nos gabamos de foder muito e como achamos uma certa mulher gostosa, mas nunca nos abrimos sobre como o stress do trabalho prejudica nossa libido. Ou dos medos que temos de sermos inadequados.

Nos deixamos ocupar com atividades e conversas superficiais como pires. E ainda reforçamos essa visão, aceitamos e defendemos esse papel.

Então, apesar do que pode parecer à primeira vista, quando uma iniciativa como a dos Los Cuecas é rechaçada, não penso que o fato de homens se reunirem seja um problema em si (como acho que isso pode ter sido recebido por eles, vendo a resposta oficial aos comentários).


Na verdade, acho que há uma falta de reuniões de homens para além das concepções rasas de masculinidade.

Falta acordarmos pro fato de que não nascemos prontos, fortes, viris, sabendo o que fazer para ter sucesso, dinheiro, fama, sexo. Aliás, devíamos até questionar por que usamos isso como busca fundamental.

E a necessidade se faz muito clara quando vemos que homens vivem solitários à medida que os anos vão passando, que se dedicam cegamente a carreira, abdicam ao convívio familiar, mesmo quando não querem, que se silenciam sobre suas emoções e engordam as estatísticas de suicídio.

Não deveríamos aceitar que revistas, jornais, livros, filmes, músicas e publicidade nos analisem e retratem de maneira tosca e superficial.

Aqui, coloco como um desabafo pessoal: não aguento mais ver que a última grande pesquisa sobre masculinidade descobriu que o homem agora se preocupa com a estética e, em seguida, a tal marca resolve vender o seu novo conceito de male grooming.

E é um engano que vejo muito a publicidade cometendo. O homem não é aquilo que ele consome ou os jogos, carros e esporte que escolhe acompanhar.

Esse efeito de sintetização do masculino é a ponta do iceberg de tudo que silenciamos por termos medo de sermos menos homens.

É por isso que eu acho tão positivo quando as mulheres resolvem cair em cima de iniciativas que insistem em encaixotar os homens dessa forma — e não pense que essa abertura surge assim, automático, eu me cago de medo de me ver nas críticas delas (e quase sempre é exatamente o que acontece).

Mas, ainda que o método e o tom seja muitas vezes irônico e jocoso, a verdade é que elas estão fazendo por nós o que não fazemos por nós mesmos: escancarando a ferida, mostrando onde estão nossas incoerências. Isso é ouro, devíamos agradecer.

Precisamos, sim, de reuniões e iniciativas que apoiem os homens a questionar e aprender de forma prática, como se posicionar num mundo que não tem mais espaço pras violências que a masculinidade clássica nos ensinou a cometer. Eu mesmo, que tantas vezes perpetuei e ainda perpetuo posturas que são nocivas à comunidade, às mulheres e a mim mesmo, adoraria conversar e aprender novas formas de agir.

É por isso que eu gostaria que os caras do Los Cuecas e de tantas outras iniciativas não se intimidassem com o feedback negativo e, ao invés disso, usassem como um aprendizado, por que a oportunidade que se abre é enorme.

Então, por favor, não parem. Há um grande potencial de abertura quando as pessoas reunidas compartilham dos mesmos problemas e dificuldades. As mulheres sabem disso e usam desse recurso de forma muito hábil, criando espaços fechados de discussão, para evitar certas dinâmicas e censuras que acabam acontecendo quando há outros gêneros presentes.

Mas da próxima, experimentem criar a oportunidade de discutir sobre uma masculinidade mais lúcida, menos opressora e violenta com os outros e com nós mesmos, de forma aberta, sincera.

Claro, é bom se divertir, suar, jogar conversa fora, mas isso nós já sabemos fazer.

Agora, está na hora de falarmos também de empatia, compaixão, sobre como ter conversas mais profundas e como nos expressar sobre o que sentimos e pensamos, como nos relacionarmos melhor com a família, carreira, amigos e, sim, com as mulheres. Para além dos nossos hábitos de consumo. Para além da visão meramente funcional do mundo.

É disso que precisamos, não só de aulas de poker.

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