O medo de ter uma vida comum


O grande pavor da nossa geração

Olha só pra sua vida e a sensação de estar dentro dela.

Ali estão todos os ingredientes que, no final, podem até resultar em um filme. Dor, sofrimento, derrota, mas também momentos mágicos, únicos, na mesma medida.

Ser você é imprevisível, cada acontecimento tem o sabor da exclusividade.

Pelo menos é o que parece quando se está focado no live streaming da coisa.

Quando você decide colocar em palavras o que se passou, automaticamente, tem seus pelos ouriçados pela excitação com os detalhes. A energia flui dentro de você. Ainda assim, essa sensação não chega sequer perto de como foi experimentar esses acontecimentos.

Em comparação com a experiência em si, o que antes era tão maravilhoso, começa a parecer desfocado, fosco.

A rua na qual você morava quando criança é muito menor do que você se lembra. A casa, então, é só uma casinha comum. A escola já nem existe mais. O cinema que você frequentava fugindo da aula virou uma igreja evangélica.

Mesmo os momentos mais ordinários têm seu charme, seu ar de grande saga.

O despertador toca, são 6 da manhã. Lá fora chove o bastante pra acinzentar o céu. Na cama, você se vira para o outro lado, revira, insiste mais um minuto ou dois, mas não tem jeito, hora de levantar.

Café com leite, pão com manteiga.

Ônibus, condução, metrô.

Trânsito.

Arroz com feijão, bife e batata-frita.

Lanche da tarde.

Metrô, condução, ônibus.

Mais trânsito.

Você cansado, precisa relaxar. Pode ser a novela, videogame, um filme, talvez algumas cervejas, conversa com os amigos ou um encontro com uma pessoa especial. Com sorte, pode ser que hoje role sexo.

Há dias em que, depois do trabalho, você precisa trabalhar ainda mais. Completar a renda. Ou, quem sabe, fazer um curso, se especializar.

Tudo muito comum, mas é a sua vida.

Talvez você esteja feliz com isso, sabendo que há um script que pode seguir e, ao final, encontre algum tipo de descanso que compense tudo. Pode ser que a mera intensidade das experiências alimente seu desejo de viver.

Mas pode ser que você esteja triste, frustrado, desejando mais. Deixar uma marca no mundo, criar um nome, inventar algo útil, ter patentes, ter um artigo na Wikipedia.

Há uma chance de que você esteja desconfiado de que isso tudo não signifique muita coisa para ninguém além de você mesmo. E, sabendo disso, pode ser que você esteja sonhando com um mundo, ideias, projetos, festas e a dissipação dessa aflição que nunca te deixa.

A verdade é que a sua é só uma vida comum, não importa o quão importante você pense que seja.

E tudo bem, né?

***

Nota: esse texto foi originalmente publicado no PapodeHomem.

Pare de se culpar, use a preguiça a seu favor

Antes de mais nada, o que você sente pode não ser preguiça, mas o puro e simples cansaço

Há tomos e mais tomos repletos de teses e pseudo-soluções para o tema da preguiça.

É só olhar rapidamente a sua timeline no Medium ou no Facebook e você vai perceber como esse tema permeia o cotidiano. Estamos sofrendo por falta de energia, ânimo e motivação.

Vai, digite aí, rapidinho, a palavra motivação no Google e você vai ver.

Aqui alguns exemplos que selecionei:

5 Ways to Get Energized and Motivated When You Feel Lazy

5 Ways to Get Energized and Motivated When You Feel Lazy

5 Ways to Get Energized and Motivated When You Feel Lazy

No Medium, o que aparece pra mim nesse instante:

5 Ways to Get Energized and Motivated When You Feel Lazy

5 Ways to Get Energized and Motivated When You Feel Lazy

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Antes de mais nada, acho que vale abrirmos um parêntese.

É muito aceitável, normal e até desejável estar desmotivado para trabalhar no seu projeto paralelo depois de ter passado oito horas trabalhando e mais duas horas no trânsito. É mais normal ainda ter dificuldade de sair da cama pela manhã depois de passar por isso seis vezes por semana, meses a fio.

Se você não consegue pegar os livros para estudar à noite, pode não ser uma questão de você ser uma geleia preguiçosa e desprezível.

Se você não consegue acordar cedo pra ir à academia, talvez não seja você o problema.

Pode ser que você esteja simplesmente sobrecarregado, cansado e precise de um tempo. Isso é algo que faço questão de deixar claro por que quando leio os artigos que pipocam por aí, sobre o tema, a impressão que me dá é de que sou uma ameba inútil e todo o mundo está produzindo a todo vapor o tempo inteiro.

Olha esse aqui embaixo, por exemplo. Quando vejo esse discurso, realmente parece que eu não sirvo pra nada e estou vivendo completamente abaixo do meu “verdadeiro potencial”.

5 Ways to Get Energized and Motivated When You Feel Lazy

E, sim, pode até ser que algumas pessoas consigam. Mas não é o meu caso, pode não ser o seu também.

Por isso, digo, muito provavelmente o problema não está em você, mas numa cultura que nos pede para produzir de uma forma não humana, sacrificando justamente aquilo que nos torna humanos: nosso bem-estar, o lazer, o livre pensamento, as boas relações.


Ainda assim, uma outra camada de raciocínio pode ser aberta.

Temos que nos relacionar com esse mundo. Precisamos ganhar dinheiro, pagar as contas e, enfim, sobreviver.

Assim sendo, seria muito bom conseguir extrair um pouco de energia em meio à adversidade para fazer o que realmente queremos com as nossas vidas, seja dar prosseguimento a um projeto, frequentar a academia ou fazer bolo pra receber visitas.

Eu já comentei uma vez, em outro texto, sobre o quanto considero a disciplina essencial em qualquer processo. Mas também compreendo como não basta querer ser disciplinado, algo nos puxa, nos afasta daquilo que é benéfico pra nós. Você pode chamar como quiser: procrastinação, falta de ânimo, de motivação, aversão… sei que é duro, mas no final, a coisa sempre vai ser uma forma sofisticada de preguiça.

E nem por isso precisamos nos culpar e nos considerarmos seres miseráveis.

O que venho experimentando é abraçar a minha preguiça, levar ela em consideração no meu planejamento e, assim, tornar ela parte do meu caminho.

Então, resolvi falar sobre algumas medidas práticas que venho tomando a respeito.

Torne fácil aquilo que é benéfico

Eu acho totalmente maluco, mas a verdade é que quase tudo o que é fácil, nos faz mal. Vá ao supermercado, pegue qualquer alimento preparado e vai ver como ele está repleto de substâncias que não exatamente contribuem para uma boa alimentação.

Os aplicativos que mais usamos costumam ser os que mais roubam nossa atenção. São feitos não só pra serem simples e fáceis de usar, mas também para viciar. Sem contar que gostam de chamar você o tempo inteiro por meio de notificações.

Já os aplicativos mais úteis não costumam fazer o mesmo. Comida boa também não vem pronta em pacotinhos só pra você adicionar água e comer.

Então, algum esforço precisa ser feito para que a concorrência não se torne desleal e as distrações ganhem sempre.

Na prática, é preciso um certo esforço pra tornar as coisas pelo menos um pouco mais fáceis.

O que eu faço:

  1. Quero tocar diariamente e aproveitar repentes criativos para escrever e compor música e textos. Pra isso, organizo meu quarto para que meus instrumentos estejam sempre à mostra e, quando me der vontade, eu possa simplesmente sentar e brincar com as minhas coisas. Caderninhos acessíveis, instrumentos fora das capas, amplificador montado. Tudo só me esperando.
  2. Alimentação mais saudável: nem sempre consigo, mas reservo um dia pra preparar comida ou pelo menos uma parte dela pra todo o resto da semana. Assim, eu posso só pegar os potinhos na geladeira e levar minha marmita pro trabalho ou esquentar no microondas pra jantar. Quando não faço isso, gasto uma grana com alimentação e como muito mal, já que a comida que vendem nos restaurantes costuma estar mais pra uma lasanha do que pra uma salada.
  3. Atividade física: engatei bem o hábito da bicicleta. Mas algumas vezes eu evitei a bike por preguiça de ter que descer com ela no ombro usando a escada (moro em uma casa). Hoje deixo ela na garagem, no mesmo nível do térreo, quando preciso utilizar, só tiro e vou. Além disso, deixo os acessórios também à mostra. Assim, quando vou sair, lembro da bicicleta, pego as coisas e saio.
  4. Produtividade: A capa do meu celular também conta mais com os aplicativos que me são úteis e ajudam no que pretendo fazer do que os que mais uso. Facebook, Instagram, Snapchat, nada disso fica ali. Ao invés disso, deixo o Todoist, o 7 weeks, Evernote, Agenda, Guia Bolso, Calculadora, Alarme/Relógio e o ClearFocus.

Dificulte o que é prejudicial

Aqui, é importante deixar explícito também o outro lado da moeda.

É preciso tornar um pouco mais difíceis as coisas prejudiciais.

É por esse motivo que, por exemplo, é preferível não ter instalados ou não deixar os atalhos de Facebook, Instagram, Whatsapp ou Snapchat logo na capa do celular.

Do mesmo modo, comida instantânea, refrigerantes, doces, não são muito interessantes de se ter na geladeira caso você queira se alimentar melhor.

O motivo é simples: nosso condicionamento é o de buscar prazer e damos preferência a isso. Quanto mais rápido e fácil a obtenção desse prazer, melhor. Pouco importa se no longo prazo isso vai nos ferrar ou se podíamos ter obtido um resultado melhor. Não é à toa que procrastinação é algo que nos arrasta tão facilmente.

Assim, é bom criar as condições favoráveis pra fazer o que é mais benéfico e, ao mesmo tempo, dificultar o que não é.

Por favor, tenha tempo livre, pare de trabalhar, relaxe

Eu já fui do tipo que trabalha o tempo todo. Minha desculpa para não participar de shows, eventos, encontros, etc, era o trabalho. Eu sempre tinha algo ó-tão-importante que me impedia de ser alguém mais sociável e feliz.

Além disso, eu forçava a situação procrastinando demais ou não impondo limites. Usava até mesmo o fato de ter uma rotina flexível de forma desfavorável. Meu trabalho era flexível sempre pra mais, nunca pra menos.

Eu volta e meia falho com isso e acabo passando dos horários, trabalhando demais, mas nem de longe como antes. E isso melhorou muito minha vida.

Tenho novamente meus finais de semana, nos quais não abro emails e não me preocupo com trabalho. Uso esse tempo pra relaxar, comer, dormir, ver filmes, pedalar, encontrar os amigos ou seja lá o que me der vontade. Também evito trabalhar em feriados.

E digo: é essencial que seja assim.

Sem isso, não dá nem pra trabalhar forçado, muito menos pra estar cheio de energia.

Sem esse tempo para viver, a gente vira um saco de batatas que faz coisas, rastejando pra lá e pra cá.

Portanto, trabalhe, produza, tenha projetos paralelos, seja criativo, pense mil coisas mirabolantes, mas não se esqueça que a vida está aí, acaba rápido e vai muito além de matar a maior quantidade de tarefas em um dia.

Relaxe, respire e lembre de apreciar a paisagem de vez em quando.


Nota: Se gostou do método Pomodoro, você pode se aprofundar com esse livro.

Dois dedos de prosa sobre o Los Cuecas e iniciativas voltadas ao aprimoramento do masculino


A história, pra quem não acompanhou, é a seguinte: um grupo de homens decidiu se reunir e ajudar outros homens a se tornarem mais homens, ensinar tudo o que todo homem deveria nascer sabendo, mas não sabem.


O problema: ser mais homem, segundo esses homens, era saber fazer churrasco, jogar sinuca, manjar de drinks, poker e fotografia.

A coisa desdobrou de um jeito bem interessante. Ao invés de chamar atenção dos homens que gostariam de ser ases da masculinidade, o post atraiu mulheres ridicularizando a iniciativa. Depois, eles deletaram o tal post e não especificaram se o curso continua ou não.

Confesso que eu gostei e me diverti com a espirituosidade das moças, mas à parte da “zoeira” e do pânico e frustração de muitos homens que resolveram entrar no embate pelos comentários, vale olhar um pouco mais a fundo o evento.

Antes de mais nada, não acho que seja errado ensinar a quem quer que seja qualquer um desses itens. Eu não sei jogar nem porrinha, não sei preparar drinks e fotografo pra lá de meia boca. Gostaria muito de saber essas coisas e compreendo o papel que elas possam ter como lubrificante social.

Porém, isso ser usado como base do entendimento do que é ser homem é extremamente limitado.

Mais do que isso, é uma violência no sentido de encaixotar e limitar o espectro de masculinidade a essa meia dúzia de hobbies e também por partir do pressuposto de que, diante da aparente confusão dos homens sobre seu papel no mundo de hoje, o que precisamos é de um resgate, um retorno às origens, quando homens faziam coisas de homem.

A real é que esses antigos valores estão lentamente e progressivamente caindo por um motivo: eles não dão mais conta de explicar e abarcar a complexidade dos indivíduos e a forma como eles compreendem seus papeis de gênero.


Nota importante: Sei que argumentar pela comparação costuma gerar problemas. Então, com o que vou falar aqui embaixo, não quero dizer que as mulheres são melhores que os homens, nem que todos os homens são seres limitados e burros. Também não quero diminuir ou negar os problemas femininos, nem vitimizar homens, muito menos dizer que a absoluta totalidade das pessoas de um gênero ou de outro sejam qualquer coisa, nada disso.

Somos crescidos e já está na hora de sabermos conversar sem partir pra extremos argumentativos que só dificultam o papo. Então, ressalvas feitas, vamos lá.


As mulheres estão se articulando de maneira fantástica. Não participo, mas observo de longe grupos de estudo e amigas feministas que estão desconstruindo o sistema inteiro, colocando novas fundações em como são vistas e como querem ser olhadas pelo mundo. Elas se posicionam a lutar por seus direitos e impedir mais opressão. E quando algo sai torto, simplificando-as e limitando-as, elas conseguem se manifestar de forma que tende a torná-las, cada vez mais, uma voz impossível de ser silenciada. (Ainda bem!)

Quanto aos homens, a confusão é tão grande que, ao invés de se expandir, questionar e desconstruir, para ressurgir mais fortes (outra nota importante: não num sentido de competição e guerra dos sexos, me refiro à questão pessoal, de amadurecimento da identidade), muitos se orgulham daquilo que os simplifica, como quem se agarra cegamente ao mastro do navio que está afundando.

Basta ver o teor dos nossos encontros. Nós jogamos bola, mas se é pra ver um filme, não assistimos nada que não seja sobre super-heróis. Nós tomamos cerveja, mas nunca falamos sério de nada que nos faça parecer fracos. Nos gabamos de foder muito e como achamos uma certa mulher gostosa, mas nunca nos abrimos sobre como o stress do trabalho prejudica nossa libido. Ou dos medos que temos de sermos inadequados.

Nos deixamos ocupar com atividades e conversas superficiais como pires. E ainda reforçamos essa visão, aceitamos e defendemos esse papel.

Então, apesar do que pode parecer à primeira vista, quando uma iniciativa como a dos Los Cuecas é rechaçada, não penso que o fato de homens se reunirem seja um problema em si (como acho que isso pode ter sido recebido por eles, vendo a resposta oficial aos comentários).


Na verdade, acho que há uma falta de reuniões de homens para além das concepções rasas de masculinidade.

Falta acordarmos pro fato de que não nascemos prontos, fortes, viris, sabendo o que fazer para ter sucesso, dinheiro, fama, sexo. Aliás, devíamos até questionar por que usamos isso como busca fundamental.

E a necessidade se faz muito clara quando vemos que homens vivem solitários à medida que os anos vão passando, que se dedicam cegamente a carreira, abdicam ao convívio familiar, mesmo quando não querem, que se silenciam sobre suas emoções e engordam as estatísticas de suicídio.

Não deveríamos aceitar que revistas, jornais, livros, filmes, músicas e publicidade nos analisem e retratem de maneira tosca e superficial.

Aqui, coloco como um desabafo pessoal: não aguento mais ver que a última grande pesquisa sobre masculinidade descobriu que o homem agora se preocupa com a estética e, em seguida, a tal marca resolve vender o seu novo conceito de male grooming.

E é um engano que vejo muito a publicidade cometendo. O homem não é aquilo que ele consome ou os jogos, carros e esporte que escolhe acompanhar.

Esse efeito de sintetização do masculino é a ponta do iceberg de tudo que silenciamos por termos medo de sermos menos homens.

É por isso que eu acho tão positivo quando as mulheres resolvem cair em cima de iniciativas que insistem em encaixotar os homens dessa forma — e não pense que essa abertura surge assim, automático, eu me cago de medo de me ver nas críticas delas (e quase sempre é exatamente o que acontece).

Mas, ainda que o método e o tom seja muitas vezes irônico e jocoso, a verdade é que elas estão fazendo por nós o que não fazemos por nós mesmos: escancarando a ferida, mostrando onde estão nossas incoerências. Isso é ouro, devíamos agradecer.

Precisamos, sim, de reuniões e iniciativas que apoiem os homens a questionar e aprender de forma prática, como se posicionar num mundo que não tem mais espaço pras violências que a masculinidade clássica nos ensinou a cometer. Eu mesmo, que tantas vezes perpetuei e ainda perpetuo posturas que são nocivas à comunidade, às mulheres e a mim mesmo, adoraria conversar e aprender novas formas de agir.

É por isso que eu gostaria que os caras do Los Cuecas e de tantas outras iniciativas não se intimidassem com o feedback negativo e, ao invés disso, usassem como um aprendizado, por que a oportunidade que se abre é enorme.

Então, por favor, não parem. Há um grande potencial de abertura quando as pessoas reunidas compartilham dos mesmos problemas e dificuldades. As mulheres sabem disso e usam desse recurso de forma muito hábil, criando espaços fechados de discussão, para evitar certas dinâmicas e censuras que acabam acontecendo quando há outros gêneros presentes.

Mas da próxima, experimentem criar a oportunidade de discutir sobre uma masculinidade mais lúcida, menos opressora e violenta com os outros e com nós mesmos, de forma aberta, sincera.

Claro, é bom se divertir, suar, jogar conversa fora, mas isso nós já sabemos fazer.

Agora, está na hora de falarmos também de empatia, compaixão, sobre como ter conversas mais profundas e como nos expressar sobre o que sentimos e pensamos, como nos relacionarmos melhor com a família, carreira, amigos e, sim, com as mulheres. Para além dos nossos hábitos de consumo. Para além da visão meramente funcional do mundo.

É disso que precisamos, não só de aulas de poker.

Você pode não mudar ninguém, mas as pessoas mudam


Chegar em casa é se jogar na cama, sentir os lençóis, ler aquele livro parado na estante, pegar algumas guloseimas no armário e assistir um filme no Netflix. É liberdade, sossego, acolhimento.

Mas às vezes você divide esse espaço de paz e, ao invés do cenário paradisíaco descrito acima, encontra louça suja, lixo em cima da pia, sapatos espalhados pela sala e muitos outros sinais de desleixo deslavado em cada canto.

Os olhos vermelhos, o sangue fervente e a rinite furiosa com o ar pesado e os espirros completam o cenário de fracasso existencial. Isso não pode acontecer!

É óbvio que não é só a bagunça. Dá pra colocar na conta todas as vezes que engoliu em seco as desculpinhas. “Estou muito ocupado”, “trabalhei até tarde”, “estou exausto”, “eu só quero chegar em casa e não me preocupar com nada”. Você podia dizer o mesmo, mas não. Ao invés disso, você foi lá e fez o que precisava ser feito.

Você fala uma vez, a segunda, a terceira. As discussões acontecem e alguma coisa em você se sente como naqueles anos em que os seus pais se divorciavam lentamente, enquanto você ouvia os gritos e olhava pela porta entreaberta, fingindo que estava dormindo no quarto.

Mesmo engasgada e com medo, você quer mudanças, ações práticas e reais. Quer sentir as boas intenções. Você tem sua razão e merece colaboração, depois de tanto esforço e tempo dedicado a manter as coisas no lugar.

Mas quando o cansaço é mais forte que a vontade de melhorar, você desiste. O que sobra é aquela sensação amarga de ter passado do ponto, de ter forçado o impossível. Cumprimentos embaraçosos de quem não quer ser mal educado, apesar de tudo.

Janeiro, fevereiro, março e mais alguns meses se vão. As notícias são visitas inconvenientes, nunca sabem a boa hora para chegar.

Viagens, festas, novos relacionamentos, e enfim, uma foto da casa nova. O Facebook é bom em montar cenários ideais e fazer parecer que as pessoas são muito mais felizes e perfeitas do que realmente são. Mas em complemento, há também os relatos dos seus amigos, sobre como está tudo tão melhor para ele, como ele finalmente está colocando as coisas no lugar e dando um jeito na vida.

Você respira, alívio puro, lembrando da sensação de ser uma ditadora, empurrando-o em direção a algo que até então ele não queria. Ou que, pelo menos, não queria com você.

Você dá um sorriso de canto de boca e chacoalha a cabeça em negação, concatenando as ironias possíveis ao olhar para a situação inteira. Era óbvio.

Poucas coisas podem ser tão violentas e egoístas quanto olhar para alguém e querer que essa pessoa mude só para se adequar ao que você quer. Ao mesmo tempo, quão mimado é alguém que descuida de tudo ao seu redor, sem pensar no bem-estar de quem vive na mesma casa?

Como sempre, o senso comum mostra sua riqueza, estando ao mesmo tempo correto e incorreto. Não é que as pessoas nunca mudem. É só que a gente não consegue mudar ninguém.

***

Nota: esse texto foi originalmente publicado no PapodeHomem.

Para uma boa escrita, aprenda a mergulhar


Tudo o que você precisa é de dez minutos por dia e um método claro

Escrevo por profissão há alguns anos, mas sei que não sou nenhum Antônio Prata, então, descobri logo cedo que precisava ralar se quisesse tirar da cabeça algo que valesse os minutos de leitura que alguém dedicasse aos meus textos.

Ainda lembro que, no começo, eu passava dias pra chegar naquele resultado que me desse a coragem de publicar. Não era fácil — e ainda não é. Por sorte, eu tinha um bom editor que me ajudava a não sair falando besteira.

Um belo dia, eu me tornei editor no PapodeHomem e o fluxo de trabalho aumentou enormemente. Agora, além de escrever, eu também tinha que olhar a produção de outras pessoas e tirar sabe-se lá de onde, ideias que melhorassem o que elas me enviassem. Assim, aprendi a passar feedback e extrair artigos de gente que, muitas vezes, não tinha a menor intimidade com a escrita (ainda que tivessem todo o conteúdo lá). Li milhares de textos. Escrevi uma centena de outros.

Mesmo assim, um dia, a fonte secou.

Ficou muito mais difícil arrancar de mim as ideias, os insights e ainda ter a habilidade de estruturá-los pra gerar artigos ao mesmo tempo úteis e gostosos de ler. Assim, eu me pus a estudar.

A ideia por trás disso vinha da minha experiência com o estudo da música: como a musa inspiradora me deu bolo, talvez eu pudesse voltar a ter prazer e a ser eficiente se entendesse de que forma os escritores por profissão conseguiam tirar suas preciosidades da cartola para colocar no papel.

Minha crença é de que inspiração ajuda muito e torna, com certeza, o trabalho mais vívido. Mas não dá pra viver só disso.

É preciso consistência, técnica, estudo e uma certa dose de disciplina para diminuir a diferença entre o momento que você senta e aquele no qual as palavras efetivamente fazem o caminho da sua mente para o papel (ou tela).

Esse artigo é fruto dessas pesquisas e de algumas experiências marcantes que tive no caminho. Não é um guia definitivo e nem pretende ser, mas é um ponto de partida potencialmente útil pra muita gente que passa ou passou pelos mesmos percalços na tentativa de lapidar o ofício.

Vamos começar com uma dica mais teórica e, por último, aplicaremos isso em um método diário.

Mostrar vs Contar

Essa eu ouvi pela primeira vez da Cris Lisbôa, que ministra o curso do Go Writers.

Se você quer envolver uma pessoa, é importante aprender a diferença entre mostrar e contar.

Mostrar é encher o objeto escolhido com todas as cores possíveis da experiência sensorial. É imprimir nele tamanho, cor, forma, cheiro, textura, som, sabor, enfim, tudo o que conseguir.

Pra fins de teoria, vamos adicionar a consciência a respeito de mais dois sentidos, além dos tradicionais visão, audição, paladar, tato e olfato.

  1. Senso orgânico: a consciência a respeito de funções internas do corpo, como batimentos cardíacos, respiração, pulso, tensão muscular, arrepios. É comum que atletas tenham familiaridade com esse senso, mas todos usamos, como quando você percebe que está lendo há muito tempo e precisa descansar.
  2. Senso cinestésico: é a sua noção grosseira de relação com o mundo. Crianças rolam pelo chão, dão cambalhotas, correm, dançam, como uma forma de estimular esse sentido. Tudo o que demanda movimento e interação se dá por aqui.

Contar é simplesmente dizer claramente o que você quer dizer.

“Cecília está triste.”

“O cachorro morreu.”

Na linguagem verbal somos muito mais sintéticos e é normal que isso acabe se tornando também a forma como escrevemos.

Claro, contar tem a sua utilidade, mas pro ponto desse texto, mostrar é muito mais importante. Queremos desenvolver nossa percepção sensorial e transportar isso para as nossas linhas.

Quando decidir novamente descrever algum objeto, experimente trazer cada estímulo sensorial possível para o texto e veja como, ao invés de simplesmente contar — sem magia, sem mistério, sem vida — você vai construir a imagem ou sensação de forma direta na mente do leitor. Ele não vai nem entender o por quê de sentir nojo, ansiedade ou saudade, mas vai sentir.

Prática: escreva todos os dias

Ok, falar é muito fácil. Muitos de nós não tem metade do tempo livre que gostaria de ter para fazer esse tipo de atividade e, pra dificultar ainda mais, somos péssimos em gerenciar o tempo que sobra.

Mas, acredite em mim quando digo, não é necessário tanto para tirar a poeira e começar a ver o mundo com os olhos de um escritor.

Você só precisa de 10 minutos todos os dias e um método claro.

Eis o meu:

  1. Escolha um objeto aleatório;
  2. Coloque um despertador para tocar em dez minutos;
  3. Escreva sobre o objeto, mostrando-o e utilizando-se dos 7 sentidos.
  4. Pare no exato instante que o despertador tocar.

Faça isso como a primeira coisa do dia, antes de tomar café, escovar os dentes ou dar bom dia para a pessoa com quem dormiu. A ideia é acordar o seu escritor, antes de qualquer coisa. Treinar seus olhos e a sua mente para funcionarem dessa forma, desde o primeiro momento no qual ela está novamente ativa.

Também é importantíssimo parar quando ouvir o despertador. Nem um segundo a mais.

A questão é que, no primeiro dia, talvez você não escreva nada. No segundo, é possível que escreva um pouco e esteja horrível. No terceiro, pode ser que você engate uma linha de raciocínio intensa, comece a escrever algo incrível e seja interrompido, para sua tristeza.

Os benefícios são dois, principalmente.

Um, você tende a diminuir a diferença entre o momento em que você senta e o momento no qual as ideias começam a fluir.

Dois, com o tempo, vai ficar treinado em criar conexões sensoriais sobre os objetos. Seu olhar vai ficar afiado.

Não ter tempo para desenvolver as ideias vai torná-lo um mergulhador muito mais rápido e habilidoso. Se antes demorava horas para chegar lá no fundo da experiência, de repente, você se vê capaz de atingir esses locais muito mais rápido.

Além disso, não só pode gerar em você a insatisfação que vai instigá-lo a querer escrever melhor (“onde eu chegaria se tivesse mais tempo?”) como também pode ajudar a trabalhar dentro do tempo disponível, criando a melhor ideia viável.

Se eu pudesse recomendar só um exercício, sem dúvidas, seria esse. Não à toa, é o que venho fazendo.


Nota: tenho um outro texto com indicação de bons livros para quem quer ser um escritor melhor. Caso goste desse artigo, pode ser um bom aprofundamento.

Eu quero agradecer por você trabalhar no que trabalha


Há pouco mais de um mês, minha casa deixou de ser o lar pacífico do Django, o cão mais maloqueiro do eixo Perdizes-Vila Madalena, para se tornar uma constante fonte de preocupações.

O terror se iniciou quando uma tomada pegou fogo misteriosamente, sem sequer estar em uso. Para resolver o problema, chamamos um eletricista.

Essa foi a primeira vez que ouvi falar no Seu Zé.

Com toda a habilidade que os anos de experiência proporcionaram, ele veio e resolveu o problema. Um fio antigo superaqueceu, uma emenda se rompeu, dois cabos desencapados se encostaram e, como um casal de adolescentes, o fogo se iniciou. Por sorte, tudo deu certo e agora estou aqui para contar a história.

Cerca de uma semana depois, tivemos um novo incidente. Dessa vez, com direito a apagão (menos na parte anteriormente consertada, diga-se de passagem) e lá veio o Seu Zé de novo, agora com um assistente, o também chamado Seu Zé.

Seus Zés

E foi assim que a dupla de xarás começou a frequentar minha casa. Agora, duas semanas depois que a rotina de gritos e desentendimentos entre eles se instaurou, é como se um milagre tivesse ocorrido. A nova instalação elétrica da minha querida residência está quase pronta, com as tomadas funcionando, novos pontos de luz e a (espero) certeza de que posso dormir em paz, sem novos sustos.

Assim, hoje tive um estalo.

Eu não sei quem faz a maior parte de tudo o que uso e vejo. E, quando digo isso, é uma confissão que faço com uma certa vergonha. Mais do que isso, eu raramente agradeci, de coração, a quem tem dedicado a vida para que um pedacinho do mundo seguisse funcionando.

Uma parte de mim sabe que há engenheiros construindo prédios, arquitetos se preocupando em fazer com que eu me sinta bem nos mais variados espaços, padeiros fazendo meu pão, cozinheiros fazendo meu almoço.

Mas isso não é algo que passa pela minha cabeça quando, por exemplo, a água sai magicamente pela torneira. Quando esse milagre está operando, lavo as mãos e sigo a vida.

Essa é a tragédia, mas ao mesmo tempo, o maior sinal de que há um trabalho muitíssimo bem feito aí. Eles são capazes de deixar algo operando perfeitamente por tanto tempo que é como se tudo tivesse aí desde a origem do universo.

Nós, que somos uma geração meio acostumada a desejar holofotes, talvez nem pensemos que essas pessoas talvez tenham desejado, tanto quando nós, ser artistas, pintores, escultores, músicos, filósofos, vai saber… e, por qualquer motivo, optaram ou foram forçadas a fazer qualquer outra coisa.

Ou, por outro lado, nós, que-somos-uma-geração-meio-acostumada-a-desejar-holofotes, não concebemos que é possível alguém desejar fazer a exata coisa que está fazendo com uma certa alegria, mesmo que isso não inclua um cafuné de “bom garoto”, desses que o Django tanto gosta.

Como hoje, quando os Seus Zés estavam saindo de casa e comemoravam o fato da obra já estar quase finalizada. Assim, gratuitamente.

Ou como esse homem, Todd Sanders, que faz placas de neon em Austin, nos EUA. Ele se considera abençoado por poder ganhar a vida e sustentar os filhos fazendo a arte dele.

Mas nem sempre tudo dá certo. Às vezes, uma catástrofe iminente se anuncia nos jornais, como a falta de água que agora assombra a cidade de São Paulo. Nesses momentos, elegemos um vilão e aí lembramos quem é que está encarregado da tarefa. Afinal, rola um certo alívio — bastante condenável — quando conseguimos malhar um Judas, mesmo que isso não vá resolver em nada a questão.

Só aqui no PapodeHomem temos a Mônica, a Marilene, o Felipe Ramos, o Rodrigo Cambiaghi, o Gustavo Gitti, o Eduardo Amuri, o Guilherme, o Jader, o Felipe Franco, o Rafael Tiltscher, a Ana Higa, a Luiza, o Ismael e mais um monte de gente que trabalha remotamente. Muitos deles eu mal sei o que fazem, como é a rotina e quais as minúcias de tudo o que produzem, por mais que nos vejamos diariamente. Imagina o resto do mundo.

É como se em algum ponto começássemos a achar que só o dinheiro basta. Como se pagar tirasse a nobreza da tarefa realizada ou qualquer coisa do tipo. Penso que deve ser por isso que agradecemos (quando o fazemos!) assim, só por educação, de maneira fria, sem colocar o coração nas palavras.

Por isso que hoje me deu vontade de agradecer a todo mundo que está fazendo a exata coisa que está fazendo agora. Incluindo você que está lendo.

Afinal, se agora eu consigo redigir esse texto, é graças a essa imensa cadeia de seres que, de uma forma ou de outra, contribuíram para que eu estivesse aqui. Não é uma frase bonitinha. De fato, eu não estaria aqui se não fosse por vocês.

Obrigado.


Nota: Esse texto foi originalmente publicado no PapodeHomem, em agosto de 2014.

Comprei uma bike e descobri que o mundo é legal pra cacete

Em um dado momento, pesei as coisas, chequei meus gastos com transporte, vi que gastava uma nota à toa com Uber e táxi e resolvi agir.


É isso, comprei uma bike.

Com a bicicleta em mãos, recebi a visita de um amigo que me apoiou, montando a dita-cuja comigo, me ensinou a andar de forma segura no meio da cidade, ajudou a calcular a rota pra evitar subidas, ensinou a usar aplicativos e indicou acessórios.

Descobri a oficina do bairro, em uma rua bem perto de casa, em um beco sem saída, com uma fachada já marcada pelo tempo. Próximo à porta, um cachorro simpático, desenhado com canetão e um aviso: “volto logo”.

Quem chega, precisa se dispor a bater, como se fazia antigamente, para que o dono, um senhor de camisa azul e calça jeans folgada, já lento e curvado pela idade, guardando o maço de cigarros no bolso venha perguntar o que você quer.

Além dele, que é mais lacônico, há também o dono do velhinho cachorro “Campeão”, sorridente, externando de forma simples a sabedoria que adquiriu com a vida de pedreiro, fazendo perguntas sobre a bike e recomendando cuidado ao andar na rua.

“Avisa os seus amigos, não quero fechar isso aqui” — disse o senhor que consertou a bicicleta do meu amigo, apontando pra porta. Está avisado.

É só ir lá, na rua Monsenhor Marcelo Branco, número 13.

Andando pelas ruas, ainda com aquele cagaço de novato, acabei me deparando com a colaboração dos motoristas, que dão passagem e respeitam muito mais do que, apavorado, eu imaginava.

Tomei café com leite e pão na chapa em um boteco que sempre via, mas que nunca encontrava o alinhamento perfeito dos astros pra eu criar vergonha na cara pra parar por lá.

Casas floridas, pinturas coloridas, mensagens importantes espalhadas pelos muros, centros culturais, restaurantes que desconhecia completamente, mas que já me propus a visitar. O bairro está cheio de coisa legal.

De carro e mesmo à pé, ou de metrô, eu estava sozinho. Já nas ciclovias, as crianças brincam e acenam. Senhoras simpáticas cumprimentam. Quando dou passsagem, as pessoas agradecem. E eu retribuo sempre que o mesmo ocorre comigo.

Amigos incentivam, perguntam, oferecem-se pra andar junto.

Faz pouco tempo, mas eu até já me sinto mais saudável também.

Quando pensava no assunto, algo em mim sempre me desencorajava. Afinal, o mundo é muito perigoso, os motoristas são loucos assassinos, faltam vias e as que foram construídas na cidade de São Paulo são mal planejadas, repletas de falhas. Você pode ser atropelado, podem te assaltar, o bairro tem muita subida, você vai chegar suado no trabalho.

Mas não.

Comprei uma bike e descobri que o mundo é legal pra cacete.

Sério, vocês deviam tentar.

Ser bloqueado pelo Facebook foi uma das melhores coisas que me aconteceu

Fui bloqueado pelo Facebook por trinta dias. É aqui que começa nossa história.

Eu sou editor no PapodeHomem e, entre outras coisas, administro a página do site no Facebook.

Para quem não sabe, lá nós brincamos bastante com diversos temas e isso inclui posts que ficam na linha limite entre o que é permitido ou não na plataforma. Portanto, já aconteceu outras vezes de sermos denunciados e eles acharem válido nos bloquearem.

Na primeira vez, foram 24 horas. Depois, 48 horas. Em seguida, 7 dias. Agora, 30 dias. Pois é, cometemos o mesmo erro algumas vezes.

Ainda que não seja tanto tempo assim, a rede social azul está tão entranhada na minha rotina que só essa pausa já deu pra tirar alguns insights que resolvi compartilhar aqui embaixo.

Sim, Facebook vicia

Eu achava que meu consumo de redes sociais era saudável. Ainda acho que é, perto do que vejo por aí, juro.

Mas sendo autocrítico e tentando olhar de forma um pouco mais objetiva, o Facebook era a primeira e a última coisa com a qual eu me envolvia todo santo dia. E eu passava horas e horas recebendo notificações e reagindo tanto ao app quanto ao site desktop — ou seja, não contente em estar sempre com ele aberto, eu usava em dois lugares ao mesmo tempo.

Nunca consegui ter esse mesmo engajamento com nada que fosse benéfico pra mim. Atividade física, meditar, estudar, nada disso. Por que justo com o Facebook?

O que me fez notar isso foi como, nos primeiros dias, não poder usar a plataforma me deixava irritado.

Quando você está bloqueado, basicamente, qualquer interação fica restrita. Nada de likes, nem comentários, nem mensagens privadas. Você se torna um observador passivo da timeline. Seu Facebook transforma-se em um leitor de feed com participação especial de fotos dos seus amigos.

Eu queria falar com as pessoas, responder aos comentários, comentar nos grupos, postar fotos, mas não dava.

E aqui caiu uma ficha. A interface é quase toda baseada num sistema de feedback/recompensa feito pra manter você por perto o máximo de tempo, como uma criança que quer, constantemente, sua atenção. O efeito emocional é de certa forma parecido. Os designers não só sabem como projetam a coisa toda para isso. Então, ao atender as demandas do software, algo em você se sente contemplado, acolhido. Se você fosse um cachorro, postar uma foto e ver os likes surgindo seria o equivalente a ganhar um pequeno cafuné. Quando você menos espera, torna-se esse cãozinho apertando botões compulsivamente, na esperança de que saia ração de algum alçapão.

É impressionante como aquilo ali simplesmente perde a magia quando não há um jeito fácil de preencher o vazio clicando e recebendo feedback, seja de pessoas com quem você interage ou apenas da plataforma (é, não subestime o poder de um sonzinho ou uma mudança de cor em um elemento visual quando você clica nele).

Assim, quando me vi privado justamente desses agrados, em uma ou duas semanas perdi o interesse e resolvi fazer outras coisas.

Liberação de tempo

E aqui a magia aconteceu. Como que por milagre, eu tinha tempo.

Li um livro, arrumei minha casa, pensei em textos, toquei guitarra, ouvi música, vi filmes, descansei, saí com a namorada, conversei com amigos sem distrações.

Parece bobo, eu sei. Eu deveria conseguir fazer todas essas coisas como um ser humano normal. Mas a realidade é que somos bem menos donos da nossa energia e atenção do que pensamos. Se o aplicativo chama, você quer saber o que houve, mesmo que rapidinho. E, de segundo em segundo, de olhadinha em olhadinha, você perde muito tempo.

Se acha que é mentira, quantas vezes você não estava no trabalho, resolveu responder aquela mensagem e, quando viu, ganhou dez abas e perdeu meia hora?

Markito sonha em ter você assim

Diminuição da fadiga ao longo do dia

A atenção é um recurso escasso, limitado. Quando você precisa escrever um texto, por exemplo, vai ter que usar atenção e força de vontade para chegar até o final.

Quando um aplicativo apita, ele pede pela sua atenção. Aquela mudança de foco vai ter um gasto de energia que parece breve, quase insignificante. Depois, para retomar de onde você parou, um período de imersão vai se fazer necessário para “acelerar” novamente, rumo a uma experiência de fluxo, na qual você entra numa certa frequência que permite o retorno pleno ao que você estava fazendo.

Até aí, tudo bem, mas imagine isso multiplicado, literalmente, por centenas de vezes durante um dia.

Quando penso em alguém que trabalha atendendo demandas urgentes, pulando de um lado pro outro, de tarefa em tarefa, apagando incêndios, eu fico exausto. Por isso, não consigo entender como podia me colocar voluntariamente nessa condição, respondendo às notificações do Facebook. Mas é exatamente o que eu fazia.

Já estão surgindo os primeiros estudos que comentam a fadiga de notificações de aplicativos. Uma das constatações é que a reatividade relacionada a elas pode diminuir em até 40% a produtividade de uma pessoa no trabalho. E imagine que cerca de 43% dos usuários de tecnologia nos EUA simplesmente nunca desconectam. Minha aposta é que as estatísticas no Brasil não sejam muito diferentes.

Além disso, o próprio teor do que educamos o algoritmo a nos mostrar costuma ser bem tóxico. Ironias, discussões acaloradas, ansiedade de provar que está certo, impulsividade, medo de perder o assunto do momento. Tudo isso aumenta ainda mais o custo de atenção e força de vontade ao final de um dia.

Aparentemente, não era à toa que nesse período eu chegava ao final de um dia de trabalho bem mais disposto do que antes.

Ninguém precisa de Facebook pra ser feliz

Ainda que a estrutura inteira não seja exatamente pensada para o nosso benefício, somos nós que, ativamente, continuamos alimentando o Facebook.

Há um motivo para isso.

A rede inteira é pensada para se aproveitar dos nossos mecanismos de carência e vaidade. Lá no fundo, somos crianças e adolescentes procurando por validação, tentando sustentar uma autoimagem por meio do máximo de gratificação instantânea que conseguirmos.

Por mais que não falte vídeos, imagens, gifs, textos, pregando para sermos autênticos independente de qualquer circunstância, temos fome do olhar dos outros.

Basta ver: a forma mais impulsiva, animalesca e, ainda assim, socialmente aceitável de punição que levamos para as redes sociais é a difamação pública. Queremos tanto ser acolhidos, bem vistos, que negamos esse direito a quem odiamos.

Assim, perdemos o foco, transformamos nossa busca pela felicidade em pura vaidade.

A internet está tomada de textos que vilanizam as redes sociais. Eu juro que, apesar de tudo o que você leu até aqui, esse não é o meu objetivo.

Eu sei que a experiência de ficar 30 dias sem Facebook não é grande coisa. Sei que minha vida não se transformou definitivamente e agora, sim, vai dar certo — e sei que essa conclusão é extremamente cafona. Também não estou defendendo que você viva em uma caverna e se isole de toda tecnologia e futilidade das nefastas redes sociais. Tanto que, apesar do textão, nem penso em deletar minha conta.

É só que nunca é demais pensar a respeito das ferramentas que usamos, para que elas não nos escravizem e virem um fim em si mesmas.

Vale a pena experimentar um período de abstinência voluntária de redes sociais e outros hábitos arraigados, como uma forma de exercitar liberdade. Ninguém vai morrer se ficar um mesinho sem acompanhar a timeline.

Afinal, felicidade não é essa satisfação fugidia que a gente tem quando ganhamos um like na última foto que postamos.

Felicidade é outra coisa.

E garanto que não está no Facebook.