Não se culpe por estar cansado

Todo dia de manhã, o despertador toca.

Pra sair da cama, é aquele sufoco.

Você gruda no colchão por que ontem foi difícil e não deu pra descansar direito. Mas também por que sabe o que está por vir.

O dia com certeza não vai ser fácil e voltar pra casa à noite não costuma trazer muito alívio, mas a ansiedade de que no dia seguinte vai ter mais.

O Medium está repleto de textos que falam sobre o cansaço, sobre superar as adversidades, sobre partir pra cima e não se deixar abater.

Mas às vezes, não é uma questão de criar novas energias para não ser derrotado.

Às vezes, lutar ainda mais não é coragem, mas sim algum tipo de insistência tola em algo que não vai te levar muito longe, de qualquer jeito.

A maior parte dos meus e dos seus desejos não passam de caprichos, compromissos perfeitamente adiáveis.

E, mesmo quando é algo importante, não tem nada de errado em falhar uma ou duas vezes. Ninguém vai morrer (a menos que você seja cirurgião ou coisa do tipo).

Não adianta forçar demais, sobrecarregar o corpo e a mente.

Às vezes, a gente realmente precisa de descanso, não pra produzir mais, não pra voltar mais motivado e ser ainda melhor e ganhar sua foto num quadro de funcionário do mês.

Você não é melhor do que ninguém e ser o cadáver mais eficiente da firma não vai te ajudar em nada.

Às vezes, tudo o que se precisa é parar e dar um tempo pra ser aquilo que a gente é. Humano, sabe?

Não seja mais uma cópia dos seus ídolos


Faça o dever de casa e pesquise as fontes de quem te influencia

Pesquisa é uma das jóias subestimadas da criatividade.

Muita gente fala sobre inspiração e existe todo um discurso metafísico a respeito de como a gente processa os estímulos e experiências da vida até chegar a criar algo.

Eu coloco muita fé que esses aspectos “mágicos” tem, sim, alguma relevância, mas tenho ao mesmo tempo tenho uma certeza: a gente não chega muito longe se baseando nisso.

É preciso estudo, paciência, disciplina e um bocado de sorte pra criar algo impactante ou, no mínimo, de qualidade.

Nesse processo de construção da sua própria identidade como artista, os ídolos exercem um papel fundamental.

Algumas fontes costumam se repetir e são senso comum. Se você gosta de rock vai ouvir Led Zeppelin e Jimi Hendrix ou Pink Floyd. Se você quer escrever crônicas e contos, vai ler bastante Bukowski. Como designer, é bem provável que acabe se debruçando sobre Kandinsky e outros gênios da Bauhaus.

Em alguma medida, acabamos nos deixando influenciar aos montes por essas e outras fontes. Às vezes, até passamos do ponto e o nos tornamos imitadores. Nada de errado nisso, é uma parte de criar a si mesmo. Mas é essencial transcender essa fase, ir além.

Eu tive meu momento de tentar entender a mente dos músicos que admirava. Quando ainda ouvia Led Zeppelin, procurei Muddy Waters, Little Richard, Jerry Lee Lewis, Chuck Berry, Sister Rosetta Tharpe, depois fui esbarrando em Buddy Guy, Sonny Boy Williamson, B. B. King, até chegar em Son House, Lightnin’ Hopkins, Leadbelly e, claro, Robert Johnson. Descobri todo um universo musical baseado na música negra do final do século XIX e começo do século XX, com as composições para pianola em ragtime, e várias canções populares que mais tarde virariam base para o jazz e o blues de hoje.

Na volta, acabei aprendendo muito sobre a música brasileira, aplicando esse mesmo princípio, estudando as canções de trabalho e cantigas de roda que eram entoadas pelos escravos, desembocando no samba, nas variações paulistas e cariocas, até voltar ao rock e MPB dos Mutantes, Secos & Molhados, Caetano, Gil, Tom Zé, Raul Seixas, sem esquecer da Jovem Guarda, do soul e do funk brasileiros, até chegar nos 80, que moldaram a música pop brasileira como a conhecemos.

Demorou, não foi da noite pro dia, mas foi algo que verdadeiramente me moldou e me ensinou a entender e a ouvir música.

Em algum momento entre a minha adolescência e eu decidir que queria fazer música, acabei me deparando com o livro “Crônicas Volume 1”, do Bob Dylan.

Lá, ele descreve esse mesmíssimo processo, quando foi a Nova York para conhecer e aprender com Woody Guthrie e acabou tomando lições não só com ele, mas com muitos outros artistas que admirava, como Dave Van Ronk. O livro está repleto de descrições do Dylan sobre qualidades que ele via nesses artistas e gostaria que fizessem parte de si mesmo. É um prato cheio para quem deseja ver com esses olhos.

Eu mesmo me debrucei nas referências que ele deposita ali, numa tentativa de tomar pra mim essas mesmas influências.

Claro que não sou nenhum Bob Dylan, mas certamente foi útil conhecer tudo isso.

O mesmo dá pra se fazer com a escrita e, sem dúvida, dá pra fazer com música, design e outras formas de arte também. É um processo de enriquecimento próprio que pode e deve ser levado a sério e feito de forma consciente (e paciente, claro).

Então, da próxima vez que ouvir ou ler alguém que tem um trabalho incrível, tão bom que você gostaria de fazer igual, não pense que há mágica e um talento inigualável. Aquela pessoa tem referências, influências, e tira as ideias de algum lugar.

Você nunca vai ser igual a ela, no sentido de fazer as mesmas coisas e tomar as mesmas decisões, mas certamente você pode aprender a usar esses ingredientes à sua própria maneira.

Aprenda, sim, com quem te influencia, mas não seja uma cópia barata. Analise os caminhos percorridos, entenda os princípios e mecanismos, veja as referências que seu ídolo usa e então faça tudo do seu jeito.

Ninguém quer um novo Bob Dylan ou Bukowski. Já temos os originais.


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Como mandar bem em momentos críticos (mesmo nervoso)

Usain Bolt aprova esse texto.

Estudos sugerem que, sim, podemos nos treinar para performar bem mesmo quando estamos nervosos.

Basta olhar para a expressão dos atletas olímpicos competindo no Rio. A pressão escorre como suor gelado nos seus rostos. Às vezes dá vontade de abraçar e dizer: “Vai, cara! Você é capaz!”

Mas não é preciso competir em frente ao mundo inteiro pra sentir a pressão surgir em momentos críticos.

Quem nunca se sentiu ansioso ao se deparar com uma entrevista de emprego, palestra ou na hora de entregar aquele job do qual o seu aluguel do mês depende para ser pago?

Se você é músico ou palestrante, então, é bem possível que entrar em pânico antes de uma apresentação seja a sua rotina.

Esse medo de mandar mal tem um nome: chama-se Ansiedade de Desempenho (Performance Anxiety) ou, ainda, Medo/Pânico de Palco (Stage Fright).

Cada pessoa costuma ter suas maneiras próprias de lidar com isso.

Mas o que diz a ciência sobre o assunto?

Quais as piores e melhores formas de superar a pressão e mandar bem mesmo em momentos críticos?

Suas estratégias usuais podem piorar tudo

Segundo David Carbonell, PhD, psicólogo clínico, especialista em transtornos de ansiedade e autor do livro The Worry Trick: How Your Brain Tricks You into Expecting the Worst and What You Can Do About It (ou, em tradução livre: O Truque da Preocupação: como seu cérebro engana você para esperar o pior e o que você pode fazer sobre isso), em situações de ansiedade, somos levados a tratar um desconforto como uma ameaça muito maior do que ela realmente é. Ele chama isso de Truque da Ansiedade.

Assim, quando enxergamos algo como um perigo iminente, temos algumas reações instintivas básicas. São elas: combater, fugir ou paralisar.

Quando percebemos uma ameaça como mais fraca que nós mesmos, atacamos. Quando o perigo é maior, porém mais lento, fugimos. E, por último, se é maior e mais rápido, paralisamos.

Segundo David Carbonell, combater o medo diretamente, tentando reprimi-lo e tomando medidas para se proteger, é uma das piores formas de lidar com a situação:

“A verdadeira razão pela qual elas [as pessoas em crise] não experimentam uma catástrofe é que essas catástrofes tipicamente não partem de um medo ou fobia. Esses são transtornos de ansiedade, não transtornos de catástrofe. As pessoas passam pela experiência por que a experiência não é, na verdade, perigosa. Mas é compreensivelmente difícil para as pessoas reconhecer isso na hora. Eles acham que “escaparam por pouco”. Isso os leva a redobrar as suas medidas de proteção.

São essas medidas de proteção que na verdade mantém e reforçam o Truque da Ansiedade. Se você pensa que escapou por pouco de uma catástrofe por que tinha seu celular; ou uma garrafa de água; ou por que voltou e checou o forno sete vezes; ou por que plugou seu iPod e se distraiu com um pouco de música, então você vai continuar se sentindo vulnerável. E você vai ficar cada vez mais preso no hábito de “se proteger” desse jeito.

É assim que esse problema se embeda na sua vida. Você acha que está se ajudando, mas está sendo enganado e levado a torná-lo ainda pior.” — David Carbonell, aqui.

Situações de pressão tendem a nos levar a estados de ansiedade de desempenho. A reação mais instintiva é lidar diretamente com o problema, seja combatendo, fugindo ou paralisando, mas já sabemos que isso tende a piorar o problema.

Dá pra ficar “imune” à ansiedade de desempenho?

Qualquer um que já tenha praticado guitarra o suficiente para se familiarizar, sabe que simplesmente pegar um outro instrumento pode arruinar a sua performance, pelo menos por alguns instantes.

Isso é efeito do contexto. O instrumento, a sala, a quantidade de ruído, as adversidades que podem impedir a sua concentração, tudo isso faz parte do seu contexto de prática.

Quando você muda algum desses elementos, há uma chance da sua performance ser prejudicada.

Nesse sentido, essa variação pode dificultar a transposição das suas habilidades para a situação crítica, na qual você vai ser avaliado.

Sabendo disso, você pode acabar se sentindo inseguro e essa insegurança pode levar ao medo de palco ou ansiedade de desempenho.

Isso é verdadeiro para músicos, mas também para atletas e pode ser que situações análogas de exposição à pressão gerem esses mesmos efeitos.

E quem nunca treinou absurdamente para algo e, na hora H, falhou, tamanha a pressão do momento?

Dada a frequência com que isso acontece, pesquisadores já estão curiosos para saber se existem formas efetivas de “inocular” as pessoas, para deixá-las imunes à pressão e ansiedade de desempenho.

O pesquisador holandês Raôul Oudejans conduziu vários estudos nessa área e eles sugerem que, sim, podemos nos treinar para performar bem mesmo quando estamos nervosos.

O experimento com jogadores de basquete

Um de seus estudos envolveu dois times de basquete holandeses de nível nacional com habilidades semelhantes.

Os dois times começaram em uma situação banal, que para eles não representaria nenhuma pressão, um teste de base de suas habilidades de arremesso livre, no qual eles teriam 20 tentativas sob condições regulares de prática.

O passo seguinte foi adicionar alguma pressão.

Para induzir ansiedade, cada time foi dividido em dois times menores, que competiram entre si pelo prêmio de €25 (vinte e cinco euros). Além disso, suas performances foram gravadas e foi dito a eles que a performance seria avaliada por experts, que julgariam a técnica de arremesso de cada um. Também foi pedido que eles imaginassem que cada par de arremessos livres seriam pontos decisivos em um jogo de final. E o técnico e outros jogadores assistiam cada arremesso.

Foram nove sessões de prática durante as cinco semanas seguintes. Ambos os times tiverem um adicional de 96 arremessos para treinar.

A única diferença entre os dois times é que um deles praticou seus arremessos sob as mesmas condições de ansiedade do teste (o grupo de prática de ansiedade). Enquanto o outro treinou em condições normais de prática (o grupo de prática regular).

Depois disso, os atletas refizeram os testes, dando 20 arremessos sem nenhuma pressão. E então, outros 20 arremessos com a competição, gravação de vídeo e outros elementos colocados lá para produzir ansiedade.

Durante o teste de base, os dois times performaram pior quando submetidos à ansiedade.

O time de prática regular caiu de 75.4 pontos para 70.2 pontos e o time de prática de ansiedade foi de 77.1 para 72.7 pontos.

Depois de cinco semanas de treino, o resultado foi diferente. O time de prática regular, de novo, performou pior sob pressão (73.1 sem ansiedade; 67.9 com ansiedade).

Porém, o time que praticou arremessos sob condições que provocavam ansiedade não apenas não diminuíram sua pontuação sob pressão como se saíram melhores. Precisamente 71.3 pontos sem ansiedade e, depois, 78.0 pontos com ansiedade.

Em um segundo experimento, eles testaram jogadores de dardos. Da mesma forma, um grupo treinando em condições normais e outro em condições que induziam ansiedade — no caso, ter de arremessar dardos enquanto se seguravam a uma altura de aproximadamente 3,6 metros (sim, bem bizarro).

O resultado foi semelhante: o primeiro grupo, que treinou normalmente teve resultados piores quando submetidos à ansiedade; enquanto o grupo que treinou sob condições que induziam ansiedade não tiveram prejuízos na sua performance quando testados sob ansiedade.

Como levar isso pro mundo real?

Para muita gente, o sonho é nunca mais sentir esse pânico. Não é difícil de entender o por quê.

Quem não gostaria de jamais sucumbir à pressão e focar exclusivamente no que tem de fazer?

O resultado dos estudos de Raôul Oudejans sugerem que a prática levando em consideração a pressão e ansiedade podem prevenir perdas e até melhorar o desempenho.

David Carbonell também dá uma boa pista sobre como podemos diminuir as chances de sucumbir à pressão:

“Uma das chaves para dominar o medo de palco é se envolver de verdade e focar no seu material.

Não em si mesmo.

Em um programa completo para pânico de palco, você vai precisar trabalhar a antecipação que experimenta nas horas, dias, semanas (talvez meses!) antes de uma apresentação. Você precisa saber como desarmar o Truque do Pânico. E você vai precisar praticar com a situação de performance em si.” — David Carbonell, aqui.

Portanto, uma forma de evitar ser tomado pela ansiedade de desempenho/medo de palco, seria praticar em um contexto que adicione algum nível de ansiedade, simulando a tensão de momentos importantes.

Entrevista de emprego? Concurso de design? Palestra? Final de campeonato? Prova de vestibular? Há elementos comuns a situações críticas (alguns foram inseridos no experimento do basquete) que dá pra replicar na nossa vida cotidiana, como uma forma de se preparar para a ansiedade:

  1. Prazo (ou número limitado de tentativas);
  2. Competição;
  3. Prêmio;
  4. Punição/prejuízo em caso de falha;
  5. O julgamento de um especialista (ou alguém que faz algo melhor que você);
  6. Registro;

É possível adicionar essas camadas ao seu treinamento, por exemplo, gravando sua palestra ou performance musical, fazendo pequenas apresentações para amigos ou postando vídeos seus nas redes sociais.

Se você for um escritor, pode se impor uma frequência de escrita (por exemplo, publicar um texto toda semana, sem falta), ou soltar algo no Facebook, pra todo mundo ver e comentar.

Se for um designer, pode começar a participar de concursos, ou fazer projetos com amigos que possam cobrar prazos e qualidade.

Você pode, ainda, se propor a dar dinheiro para alguém, sempre que falhar com o que se propuser.

Uma outra forma seria enviar o que escreve/toca/desenha/fala para alguém que seja referência na área e pedir feedback.

As possibilidades são muitas.

E aí, você tem alguma forma de se impor adversidade nos treinos pra lidar com a ansiedade?

Como você vem lidando com a ansiedade de desempenho/medo de palco?


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Seja lá o que fizer, faça como Casey Neistat

Casey Neistat e a sua nova Crazy Shit

O videomaker de 4 milhões de seguidores tem bastante coisa legal a ensinar

Há pouco tempo, por indicação do Alberto Brandão, eu descobri o Casey Neistat, um filmmaker residente em Nova Iorque que é uma máquina.

Extremamente produtivo e criativo, seus vídeos são não só divertidos, como bastante inspiradores. Talvez, uma das maiores evidências disso sejam os milhões de views que cada vídeo atinge e como as pessoas reagem de forma maravilhada ao que ele faz. É só checar as caixas de comentários.

De repente, me peguei cheio de insights que podem ser úteis não só se você é um videomaker, mas também pra todas as pessoas que possuem algum tipo de criatividade correndo nas veias.

Seja você um escritor, músico, ator ou dançarino, acho que há muito o que aprender observando os movimentos dele.

Separei aqui alguns dos que mais mexem comigo e que podem ajudar a dar um gás na vida.

Pegue o que você tem e comece agora

Casey tem um belo ponto.

Equipamento não importa.

Eu entendo que esse é o passo 0 em praticamente qualquer ideia que temos. Logo depois de sonhar, nós olhamos para os problemas. Nada de novo, é esperado, até produtivo.

Aos meus olhos, o engano reside em olharmos para essas dificuldades e pensarmos nelas como impeditivos e pararmos por aí, ao invés de continuar procurando soluções.

Deixar-se travar por falta de estrutura é uma forma insidiosa de procrastinação. É apego a uma possibilidade que nem é uma possibilidade, de fato. Afinal, possibilidade é algo que é possível. Se ainda não é possível, não é uma possibilidade, é uma ilusão, uma viagem.

O que é possível é aquilo que é exeqüível.

Portanto, a questão não é só levantar os problemas e dificuldades e pensar no que você poderia fazer para chegar até lá. Não dá pra querer fazer o próximo Star Wars se você não tem dinheiro nem pra comprar uma câmera de bolso. É preciso algum nível de pé no chão também.

Mas se você não conseguir uma câmera de bolso, talvez alguém perto de você possa emprestar um celular com um mínimo de recursos.

E aí é que está a verdadeira magia.

Talvez não dê pra fazer exatamente o que você pretendia. Mas qual é o mínimo de proximidade que você consegue chegar? Qual é o mínimo realizável?

Às vezes, tudo o que você precisa é se colocar em movimento e fazer o mínimo.

Não ignore suas ideias idiotas

Sabe aquela coisa de sentar, fazer seja lá o que for e mostrar, como criança que apresenta um desenho pra mãe?

Eu sei que fica feio e nem faz bem pra um adulto ficar procurando aprovação o tempo inteiro. Mas a gente meio que perde esse aspecto mais inocente de produzir o que está ao nosso alcance à medida em que vai crescendo.

Dá pra fazer toda uma análise da sociedade, sobre como o sistema educacional e a cultura nos poda ao ponto de perdermos quase todos os traços de espontaneidade em nós, mas é melhor evitar o sermão (e eu tenho quase certeza que vocês já devem ter uma ideia disso).

O fato é que a vida nos deixa meio pretensiosos. A gente caminha por aí tensos, nervosos e fica se perguntando se não estamos passando por idiotas em público, com medo de dizer ou fazer a coisa errada.

Não vou dizer que isso é totalmente inútil, porque não é. Precisamos disso, pra não correr o risco de viver em um grande almoço de família, onde todo mundo pensa que pode sair dizendo o que bem entende.

Mas de vez em quando é bom relaxar e colocar a mão na massa. Às vezes, aquela ideia idiota que você teve e que serviu pra deixar alguns amigos rindo a noite inteira pode fazer alguns milhares de pessoas rirem também. Quem sabe, aquela ideia de aplicativo que soa meio besta pode acabar sendo bem útil. Quem sabe?

O único jeito de ter certeza é se sujando, deixando suas ideias passarem pelo crivo dos outros.

Claro, vamos manter o bom senso. Também não vale colocar no ar aquele seu post nazista e achar que vai ficar tudo bem. E, por favor, não seja como o Biel, não saia falando qualquer besteira racista e machista que vier à sua cabeça, achando que não há consequências.

No entanto, se for só uma ideia meio besta, sem brilho, ela não vai muito pra frente e vai cair no ostracismo. Então, não tem lá tanto assim com o que se preocupar.

Just keep uploading

Essa é a versão do Casey Neistat para “apenas continue”.

Não há sucesso da noite para o dia.

Na verdade, a mera noção de “sucesso”, como vejo as pessoas falando por aí já me dá uma certa aversão. Acho que esse é o foco errado e, pelo menos pra mim, só traz ansiedade, frustração e é a exata motivação que me faz desistir perante a menor adversidade ou contrariedade.

Porém, a ideia de se deter em uma só coisa e se manter focado nisso não só me parece bem mais sensata, como muito mais poderosa.

Afinal, o que você seria capaz de fazer se não precisasse de elogios e não tivesse nenhum medo das críticas? Até onde chegaria se seu foco fosse só dar mais um passo?

Casey Neistat é a prova de que consistência conta. Mais do que pensar nos milhões de views que cada vídeo vai obter e no dinheiro entrando, ele olha apenas para o que tem de fazer e faz. Ele cria vídeos. O resto acontece. Ou não.

Independente disso, ele continua.

Rotina conta (e muito)

Para conseguir tornar o item anterior uma realidade é preciso uma rotina.

Conheço pelo menos um cara (e desculpa por não mencionar o nome) que mudou a vida inteira apenas criando uma rotina e se dedicando completamente a ela. Ele saiu de designer de moda para pintor full time, realizando um objetivo que muita gente só considera como sonho e enche de obstáculos (“não dá pra viver de arte no Brasil”, esse tipo de coisa, sabe?).

Mas isso não aconteceu sem que ele fosse abrindo janelas de tempo e dedicação cada vez maiores na sua vida para isso.

Vale mencionar também que uma rotina ajuda que você não se distraia facilmente, dá um eixo. Então, mesmo que você mude de ideia e decida fazer outra coisa, você sabe que está saindo dos trilhos. Assim, é possível voltar mais rapidamente, evitando danos muito maiores.

Acredite, dá pra passar meses distraído, desperdiçando tempo e energia. Então, é melhor que você saiba de que forma está se perdendo.

Uma rotina definida é a plataforma na qual você pode começar a fazer uso de disciplina e, quem sabe, colher os frutos do trabalho sistemático no longo prazo.

Não desperdice tempo

Vivemos em uma era na qual todo mundo parece estar correndo, o tempo inteiro.

As pessoas parecem estar sempre atrás do prejuízo, atrasadas. O que você mais ouve é “Sabe como é, né? Aquela correria”. Elas vivem ficando na firma até tarde ou levando trabalho pra casa.

Em seguida, o que acontece é uma chuva de reclamações sobre como gostaria de fazer um monte de outras coisas da vida, mas que nunca encontra tempo.

Se a pessoa precisa fazer academia, não dá. Se precisa se alimentar melhor, falta tempo para cozinhar. Até a casa fica suja por falta de tempo, afinal, a pessoa está sem dinheiro e não consegue contratar alguém pra limpar ou dedicar uma ou duas horas em um final de semana pra organizar as coisas.

Por outro lado, quando você abre o Snapchat, o que mais vê são pessoas postando sobre como elas estão entediadas.

Isso é horrível! Como a gente deixa isso acontecer? Como nos tornamos isso?

Minha aposta tem a ver com uma certa tirania da distração que paira sobre nós.

“Não é que não tenhamos tempo pra viver, mas é que nós desperdiçamos um monte de tempo.”

A frase aqui em cima está nesse vídeo e é uma citação que o Casey faz de um cara chamado Ryan Holiday.

Nós mal nos mantemos presentes na nossa vida. Desperdiçamos um monte de tempo com coisas que não são importantes e não vão nos deixar mais próximos do nosso próprio bem-estar e felicidade.

A gente acha muito legal sonhar com o dia em que vamos lançar um livro ou disco. Parece lindo quando vemos alguém dançando forró ou salsa e realmente aspiramos que um dia a gente saiba fazer o mesmo.

Mas, ao invés de compormos algumas músicas ou nos inscrevermos na aula de dança, preferimos nos distrair com o Facebook, rolando a timeline até que a morte chegue.

Tempo é um bem precioso e é a única coisa que você não pode ter de volta.

Além disso, nenhum de nós está ficando mais jovem. Em breve, nem se quisermos vamos poder levantar da cadeira e fazer essa coisa que parece tão interessante mas que preferimos deixar para depois. Vamos envelhecer, provavelmente vamos adoecer e o corpo não será mais essa maravilha que é hoje. Vai faltar força, disposição, sua mente não vai mais responder do mesmo jeito.

Não entenda isso como uma ode à ultra-produtividade. Eu sei que no vídeo sobre a rotina, o Casey Neistat dorme apenas 4 horas por dia e o resto parece um programa robótico no qual ele executa milhões de tarefas. Eu sei que talvez você não queira viver assim e provavelmente essa rotina não é sequer saudável. O ponto é que estamos tentando absorver o que há de melhor ali, portanto, não sejamos literais.

O que eu quero dizer é que, se você vai almoçar com os amigos, esteja presente. Não desperdice seu tempo e o deles ficando ao lado sem prestar atenção, sem se dedicar 100%.

Quando estiver trabalhando, não deixe o dia se arrastar entre gifs de gatinhos e vídeos de pegadinhas. Faça o que tiver que fazer e vá embora, viver a vida.

Se é pra relaxar, relaxe. Se é pra trabalhar, trabalhe.

Demora muito pra parecer fácil

Quem não sonha em fazer algo fácil, divertido, e ser tão bom nisso ao ponto de, no final do mês, pagar as contas com folga?

Posso listar dezenas de pessoas que adorariam ter essa vida.

Casey Neistat faz o mundo parecer interessante, vivo, ele enxerga a rotina de uma forma que nos faz pensar que a nossa vida é um saco.

O trabalho dele é fazer com que tudo pareça extremamente divertido e criativo.

Mas a verdade é que o que ele faz vem com muito, muito trabalho.

Antes mesmo de começar a produzir esse tipo de conteúdo para a internet (que ele começou a fazer antes do Youtube, vale frisar), ele já tinha cerca de dez anos de carreira. Seu trabalho é fruto de uma longa experiência.

Essa é a lição da qual nos esquecemos quando vemos alguém fazer um trabalho bem feito: nada vem da noite pro dia.

Aquele cara que escreve tão bem? Anos com a bunda sentada na frente de um computador.

Aquela pianista incrível que sobe e desce as escalas sem nem fazer cara feia? Está num conservatório desde os seis anos de idade.

Skatista? Surfista? Corredor? Jogador de futebol? Lutador de MMA? Pode escolher qualquer um. É inescapável.

É preciso dedicar muito esforço pra chegar a fazer algo sem esforço.


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Se você me acompanha pelo PapodeHomem, sai texto meu às quartas por lá.

Além disso, estou na fase final de produção do meu EP. Se esse texto te deixou curioso sobre minha produção musical, peço que me acompanhe pelo Facebook, Instagram ou Soundcloud. Logo dou mais notícias a esse respeito.

5 artistas que influenciaram Bob Dylan descritos por ele próprio

Não só o que ele vê, mas como ele vê

Nota: Publiquei esse texto originalmente em 02 de novembro de 2012, no PapodeHomem. Como venho falando sobre arte, música e criatividade de um modo geral, achei que seria interessante retomar o tema das influências que outros artistas podem ter na nossa própria formação. Fico devendo um outro artigo, com uma perspectiva atualizada e mais aprofundada sobre o tema.


Aproveitando que há pouco tempo Bob Dylan anunciou que estaria escrevendo mais um livro, resolvi tirar a poeira da edição do Crônicas Vol. I que tenho em casa.

Para quem não sabe, este livro é o mais próximo que Bob Dylan já chegou de escrever uma autobiografia. Na verdade, é uma espécie de coleção de relatos sobre coisas aparentemente desconexas, sem um sentido de linearidade, sem tocar em pontos importantes de sua história.

Ele não fala sobre Blood On The Tracks, nem como foi a gravação de Highway 61, nem sobre seu divórcio, nem sobre quando ele resolveu se converter ao cristianismo. É um livro vendido como autobiografia, no qual o autor fala quase nada sobre sua vida pessoal.

Pode parecer frustrante, mas o que ele realmente decidiu contar é, para mim, de uma preciosidade sem tamanho. Narra com detalhes sua chegada a Nova Iorque, como foi receber toneladas de novas informações, entrar em contato com os músicos e personalidades de quem só ouvia falar. Todos elementos muito importantes no que mais tarde veio compor sua maior criação: o próprio Dylan.

Nesse sentido, há muita riqueza. Há centenas de menções a músicos, escritores, atores, pintores, poetas, pessoas que perambulavam pela cidade, impressões detalhadas ou não, sempre com um olhar e uma linguagem capaz de converter a experiência subjetiva em material paupável ou objetos sólidos em elementos metafísicos. Sua escrita levanta a névoa, é feita da mesma matéria que compõe as lendas.

Então, separei cinco artistas descritos nas palavras do próprio Dylan como grandes influências no seu estilo.

Ah, antes de partir para as indicações, gostaria de deixar uma dica: leia o livro e, se puder, procure pelas referências citadas lá. Eu mesmo fiz isso e garanto que foi uma das melhores coisas que fiz na vida.

E vocês, também têm o hábito de garimpar as influências das suas influências?

Woody Guthrie

“Woody fazia cada palavra ter importância. Ele pintava com as palavras. Junto com seu jeito estilizado de cantar, o modo como ele fraseava, o senso de elocução cara-dura, seco e caipira, mas espantosamente sério e melódico, era como uma serra circular no meu cérebro, e tentei seguir o exemplo daquilo de todas as maneiras possíveis.
 
 Um monte de gente poderia achar as canções de Woody ultrapassadas, mas não eu. Eu sentia que elas eram totalmente atuais e até prognosticavam coisas que viriam.”

Dave Van Ronk

https://www.youtube.com/watch?v=3qzPjztRAoY

“Dave Van Ronk, ele era o artista com quem eu ansiava aprender pormenores. Ele era excepcional nos discos, mas em pessoa era ainda mais excepcional. Van Ronk era do Brooklin, tinha documentos de marinheiro, um vasto bigode de pontas caídas, cabelo castanho liso e comprido que descia esvoaçante, cobrindo a metade de seu rosto.
 
 Ele transformava qualquer canção folk em um melodrama surreal, um peça teatral — cheia de suspense até o último minuto. Dave ia fundo nas coisas. Era como se ele tivesse um suprimento inesgotável de veneno, e eu queria um pouco… não podia passar sem aquilo.”

Robert Johnson

“As palavras de Johnson faziam meus nervos vibrar como cordas de piano. Eram muito elementares em significado e sentimento, e desvendavam muito da paisagem interna.
 
 Não que você pudesse separar cada momento cuidadosamente, porque não pode. Há muitos termos faltando e excessiva existência dual. Johnson desvia das descrições tediosas sobre as quais outros compositores de blues teriam escrito canções inteiras. Não há garantia de que nada de suas linhas tenha acontecido, ou sido dito, ou sequer imaginado.
 
 Quando canta sobre pingentes de gelo pendurados em uma árvore, ele me causa arrepios, ou sobre leite coalhando… me dá nojo e fico pensando como ele fez isso. Todas as canções possuem também uma ressonância pessoal esquisita. Linhas atiradas de qualquer jeito, como “If today were chistmas eve and tomorrow were christmas day”, eu podia sentí-las nos meus ossos — o clima festivo específico daquela época do ano.”

Roy Orbison

“Orbison transcendia todos os gêneros — folk, country, rock’n roll e praticamente qualquer coisa. O lance dele misturava praticamente todos os estilos e algo que não fora sequer inventado.
 
 Ele podia soar maldoso e detestável em uma frase e na seguinte cantar em falsete como
Frankie Valli. Com Roy você nunca sabia se estava escutando mariachi ou ópera. Ele o mantinha sempre alerta. Com ele, era sempre do bom e do melhor. Soava como se estivesse cantando do topo do Olimpo e a coisa era séria.
 
 Uma de suas primeiras canções, “
Ooby Dooby”, tinha feito sucesso algum tempo antes, mas a nova canção não era nada parecida com aquela. “Ooby Dooby” era enganosamente simples, mas Roy havia progredido. Agora cantava suas composições em três ou quatro oitavas que faziam você querer se jogar de um penhasco. Cantava como um assassino profissional.”

Hank Williams

https://youtu.be/QFDsx1LV3TE

“Com o tempo, tomei consciência de que nas canções de Hank estavam as leis arquetípicas da composição poética. As formas arquitetônicas são como pilares de mármore, e têm que estar ali. Mesmo as palavras dele — todas as sílabas são divididas de forma que façam um sentido matemático perfeito.
 
 Você pode aprender um bocado sobre estrutura musical da composição ouvindo os discos dele, e eu os escutei bastante, e eles se internalizaram.
 
 Dentro de poucos anos, o crítico de folk e jazz do New York Times resenharia uma de minhas apresentações e diria algo do tipo: “assemelhando-se a um menino cantor de coro e beatnik… ele quebra todas as regras da composição musical, exceto aquela de ter algo a dizer”.
 
 As regras, quer Shelton soubesse ou não, eram as regras de Hank, mas não era como se eu tivesse me proposto a quebrá-las. Acontece que o que eu estava tentando expressar ficava simplesmente além do âmbito delas.”


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Além disso, estou na fase final de produção do meu EP. Se esse texto te deixou curioso sobre minha produção musical, peço que me acompanhe pelo Facebook,Instagram ou Soundcloud. Logo dou mais notícias a esse respeito.

Pare de se esforçar demais: lembre de pegar leve (e se divertir)


Não trabalhe demais, economize energia e respire para produzir melhor.

Há uns dez bons anos ou mais uma das minhas maiores paixões é fazer música, ainda que o caminho não tenha sido tão fácil quanto eu havia programado.

Já contei em mais de uma ocasião sobre como eu me autossabotava e impedia o meu trabalho de fluir, até que em um determinado momento, resolvi colocar a mão na massa e efetivamente produzir meu primeiro EP.

Venho trabalhando há cerca de um ano nisso, algumas vezes com mais energia, outras vezes mandando mal, refazendo bastante coisa do zero e até quase jogando tudo pro alto e procurando um emprego numa pizzaria.

Por isso, queria contar um causo de uma situação do tipo.

Numa dessas vezes, eu estava trabalhando na parte de arranjo de uma das músicas e não conseguia deixar de pensar que algo soava horrível. Como eu tinha determinado, naquele ponto, que trabalharia todos os dias por cerca de duas horas, pelo menos, eu não desistia.

Ainda assim, cada vez que colocava o projeto pra tocar, minha impressão era de que eu estava prestes a torturar alguém, de tão ruim que estava a música. Sempre parecia que estava tudo fora do lugar. Letra, arranjo, afinação… nada funcionava pra mim.

Então, eu me afastei, desisti. Pensei seriamente em jogar a música fora e fazer outra coisa, mesmo tendo trabalhado um mês inteiro nela.

Assim, abri outro projeto e segui a vida, com outra música da fila. Mais ou menos duas semanas depois, reabri o projeto e… estava tudo lá! Eu ouvi as outras que eu tinha na fila junto com ela e, de repente, ela soou “no lugar”, tudo bem, do jeito que tinha que ser.

E isso soou um sino em mim. Era óbvio, eu estava cansado, tinha ouvido a mesma coisa um milhão de vezes, meus ouvidos estavam cansados. Minha capacidade de avaliação estava comprometida. Na verdade, não tinha nada que eu pudesse fazer pela música, ela estava pronta, não cabia mais a mim.

Isso já aconteceu comigo outras vezes. Várias vezes eu estive tentando escrever um texto e, de repente, precisava parar, continuar em outro momento, por estar com a mente cansada.

Às vezes, o melhor que você pode fazer é dar um tempo, se distanciar, deixar pra lá um pouco.

Isso é um esforço necessário para parar de sofrer com algo que deveria ser gostoso, em primeiro lugar.

Quando estamos ali, empenhados, esquecemos que a graça de fazer algo só por gostar e querer colocar a criação no mundo é justamente se deliciar com o processo. Em especial se isso é algo que você quer fazer e não algo que é obrigado por que precisa pagar as contas.

Então, lembre-se: se isso é algo que você ama, trate como tal. Às vezes, não adianta forçar nem tentar entender, achar argumentos lógicos para vencer o obstáculo, seja ele qual for. Às vezes, o que você precisa é ir pra casa, descansar, deixar os ânimos abaixarem e se lembrar por que aquilo é tão bom.

O resto, acaba acontecendo naturalmente.

Então, aqui vão algumas dicas simples pra que você e eu possamos dar esse tempo e nos reconciliarmos com as nossas atividades.

  1. Crie margem de segurança: com a música eu não trabalho com dianteira, já que, pelo menos por enquanto, não tenho prazos. Mas com a escrita, sim. Então, tente manter, na medida do possível, alguma folga para poder falhar, seja adiantando textos ou sentando pra escrever alguns dias antes do deadline.
  2. Tenha um acervo de ideias: seja um caderninho, uma planilha, uma nota no Evernote ou Google Docs, anote tudo o que pensar com potencial de gerar um texto, mesmo que não pretenda desenvolver imediatamente. Só é importante juntar o mínimo de informação para seguir de onde parou (um link, uma imagem, um vídeo ou um parágrafo descrevendo o que pensou).
  3. Colecione referências: isso eu aprendi nos tempos de designer. Todo bom designer tem uma coleção de referências, com imagens, vídeos, filmes, quadros, enfim, tudo que possa inspirá-lo. Adotei a mesma prática pra tudo o que faço. Tenho uma playlist no Spotify repleta de referências musicais em estética, estilo, acordes, melodias, letras… enfim, tudo o que acho interessante. O mesmo para a escrita. Isso não quer dizer que eu vá copiar o que está lá, mas certamente, em algum momento, aquilo ali pode gerar uma fagulha que vai se transformar em outra coisa.
  4. Lembre-se de parar de trabalhar: é importantíssimo se divertir, fazer coisas porque gosta e quer, se reconectar com os amigos, com a namorada, com a família, estar presente, ouvir as histórias das pessoas com o coração. Sim, isso pode e provavelmente vai ser muito útil na hora em que você vai criar. Mas antes de mais nada, é essencial para que a sua vida seja mais leve e feliz. Afinal, sem espaço, sem respiro, sem leveza, não há criatividade que aguente.

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É hora de dizer as coisas que tem medo de dizer


O que fica depois que desistimos de procurar aprovação? O que sobra quando cansamos de ter medo?

Volta e meia me pego com medo de dizer o que penso. Tenho medo de falar algo que me comprometa e acabe trazendo alguma consequência bizarra, como criança que pergunta se o cabelo da tia é peruca, sabe?

Todo mundo já experimentou um pouco disso. Seja naquele jantar de família que acabou falando algo e foi ignorado, pelo bem da convivência familiar, ou, talvez, aquela vez que você questionou as intenções do professor com aquela tarefa indesejada e depois foi posto em suspensão.

No mundo profissional, muitas vezes somos considerados chatos se não deixamos passar aquela ideia que, claramente, todo mundo está super empolgado, mas que você sabe que vai dar errado lá na frente.

Desde muito cedo descobrimos que, se abrirmos a boca pra falar a coisa errada na hora errada, as consequências podem ser nefastas.

A gente vê como as pessoas olham quando desempenhamos esse papel. Ninguém quer ser essa pessoa, afinal… ninguém gosta dessa pessoa.

Às vezes, além do medo de sermos repreendidos e perdermos algo importante, ficamos com medo de falar sobre o que temos de mais íntimo e verdadeiro por que nos achamos esquisitos, nos sentimos expostos, ridicularizados, quando as pessoas descobrem a verdade sobre nós.

Mas, assim como nos relacionamentos, muitas vezes, o que temos mais medo de dizer, é justamente a coisa mais importante a ser dita.

Não importa se é algo bobo como o sentimento gostoso de ter visto um catavento colorido ou a mesma velha decepção por amor.

Ainda que todos sejamos tão comuns, perfeitamente redutíveis em palavras ou pixels no nível macro, é impossível que duas pessoas tenham vivenciado e filtrado os mesmos fatos da mesma exata maneira.

Ninguém vai ser capaz de enxergar cores, sentir cheiros ou arrepios da mesma forma que você.

Uma pessoa, além de um bicho, no sentido material da coisa, é também um acervo extremamente raro, único, de referências afetivas e memórias sensoriais.

Mas o que acontece quando as fotos da última viagem, da última festa ou da última reunião de amigos já não são suficientes? Quando a gente cansa de falar sobre os mesmos velhos dramas de amor, crises de identidade, dores no corpo, doenças e resfriados, o que fazemos? Do que falamos quando cansamos de divulgar os mesmos gifs de cachorros e beijos de língua em preto e branco? O que fica depois que desistimos de procurar aprovação? O que sobra quando cansamos de ter medo?

As pessoas sabem como fazer a gente se colocar no nosso lugarzinho silencioso, que não vai incomodar. Talvez, nunca deixe de ser dessa forma. Pode ser que nunca fique mais fácil ou menos perigoso falar o que não está sendo dito.

Ainda assim, se você está procurando falar algo importante, é essencial aprender a cavar mais fundo, em busca das coisas secretas que você tem a dizer.


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Liberdade criativa não existe (e quando existe, é ruim pra você)


Não se ressinta por não poder criar o que quer, na hora que quer. As limitações são suas melhores amigas.

Na minha experiência, começar e terminar são sempre as partes mais difíceis de um trabalho.

Hoje, meu foco está em escrita e música. Então, sempre me vejo aplicando as mesmas ideias nos dois ambientes criativos, de formas diferentes.

Um é o meu ofício, o que eu faço para ganhar a vida. O outro não me gera dinheiro (pelo menos, não de forma expressiva, suficiente para eu viver apenas disso e pagar minhas contas).

Por esse motivo, os dois tem lugares bem distintos na minha rotina. Ainda assim, são as duas atividades mais importantes da minha vida.

Quando o assunto é escrita, eu me habituei a focar em uma pauta ou necessidade, definir um deadline e executar a tarefa dentro desses limites. Caso escolha um determinado tema, eu preciso fechar a ideia, deixá-la redonda para que se encerre em um certo ponto, quando eu achar que já disse o que tinha pra dizer.

Outras vezes, preciso cuidar de um projeto que tem diversos elementos e pessoas envolvidas e todas vão opinar em alguma etapa. Eu preciso ter muito claro o que posso e o que não posso fazer.

Não digo como se afirmasse que apenas obedeço ordens e aceno com a cabeça, dizendo sim, sim, sim. Não é isso. Mas mesmo quando quero extrapolar alguns limites, isso demanda conversa e negociações que levam ou não a um novo combinado (que nada mais são do que novas limitações).

Com tudo definido e conversado, preciso sentar e executar, dentro do prazo, orçamento, tecnologia, habilidades da equipe, etc.

Por outro lado, quando eu preciso criar música, por não ter nenhum cliente, nem obrigação com ninguém, o que era de se esperar é que eu me tornasse uma máquina criativa e produzisse rios e mais rios de canções maravilhosas.

Mas isso não poderia estar mais longe da verdade.

A música, por muito tempo, foi (e às vezes ainda é) um terreno no qual eu depositava todas as minhas pretensões de perfeição.

Por muito tempo, eu me ressentia por não ter o poder de executar o que queria do jeito que queria, no tempo que achava que precisava. Eu achava que uma mente como a minha deveria ter à disposição os meios necessários para dar vazão à sua criatividade, incluindo a colaboração cega de todos.

Bullshit.

Demorei anos pra perceber que isso simplesmente não existe.

Eu lamentava não ter os companheiros de banda, nem os microfones, nem a guitarra, nem os pedais, nem a interface ou o tratamento acústico ideais e colocava a responsabilidade pela minha falta de ação nisso, quando na verdade, quem estava deixando de fazer o que era viável sob a desculpa de não ter o cenário perfeito era eu e somente eu.

Pode não parecer em um primeiro momento, mas isso tem um nome: procrastinação.

A prova maior é que, em determinado momento, eu de fato tinha o mínimo necessário para compor e começar a gravar em casa, mas não o fazia.

Apenas quando aceitei essas limitações e parei de querer comprar equipamento ou de me esconder atrás de desculpas é que as coisas começaram a andar.

De repente, ao invés de lamentar, eu me perguntava: “o que consigo fazer com uma interface de dois canais e um microfone?”; “ok, não sei tocar teclado, mas de que forma consigo inserir novos timbres nessa música?”; “não tenho um naipe de metais, o que eu posso colocar no lugar?”; “quem será que pode me ensinar a fazer a mix?”; “onde aprendo a captar melhor o violão?”; “como gravo a bateria?”; “será que consigo fazer algo simples e bom?”; e assim por diante.

Quando se tem uma limitação clara, é a chance de perguntar o que diabos você consegue fazer com as ferramentas que possui em mãos. Quando você tem um martelo, o que dá pra fazer é quebrar a parede ou pregar uns pregos. A instrução fica clara.

Por outro lado, o oceano de possibilidades da liberdade absoluta leva à paralisia. Você não começa e também não termina. Esse desejo costuma ser só mais uma desculpa baseada em excesso de autoimportância, pura pretensão.

Jack White, por exemplo, impõe limitações a si mesmo, para não se perder. Ele precisa de prazos, de compromissos, de horários agendados em algum estúdio, para poder criar. Ele precisa saber qual o formato, se a música vai contar com um instrumento ou vários, de quantos canais vai dispor, etc. Isso não o impede, pelo contrário, o estimula.

Trazendo de volta pra nossa realidade, podem ser as expectativas do cliente, falta de tempo, equipamento, dinheiro, pessoal, ou mesmo habilidade da sua parte, mas as limitações estarão lá e você vai ter de contorná-las. Liberdade criativa não existe.

É a forma como você lida com as limitações que vai contar e, quem sabe, um dia deixá-lo tão hábil que, de fato, as piores situações sejam vistas com completa liberdade.


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Perdi dez anos tentando ser perfeito (por favor, não faça o mesmo)


Louis C.K. é um artista, mais do que um comediante.

Isso fica mais ou menos claro quando você começa a observar que, para além da comédia stand up, ele produz, dirige, atua e escreve em praticamente tudo que participa.

Sua produção é ampla e de qualidade indiscutível. Mesmo que não goste do tom da comédia dele, você tem que dar o braço a torcer.

Há alguns anos me deparei com esse vídeo, no qual ele fala sobre a influência que George Carlin exerceu em sua vida.

O ponto que mais ressoou em mim foi a parte na qual ele diz que passou 15 anos tentando aperfeiçoar um show que era uma bosta. Isso realmente começou um processo em mim, então, acho que vale muito a recomendação.

Traduzi aqui embaixo pra quem, por acaso, preferir não ver o vídeo, mas reforço, reserve dez minutos, feche as outras abas e assista.


Na primeira vez que entrei no palco, eu fiz um minuto e meio e bombei. Foi terrível, mas eu queria tanto que continuei tentando e eu aprendi como escrever piadas — e eu só tinha piadas, meio que pensamentos engraçados, e sei lá, e… cerca de 15 anos depois, eu estava andando em um círculo que não estava me levando a lugar algum. Ninguém ligava pra quem eu era e eu muito menos. Eu honestamente não me importava. Eu costumava ouvir meu ato e pensar “isso é uma bosta e eu odeio essa merda”, mas eu estava trabalhando nisso por 15 anos. Parar agora seria como sair da prisão, quer dizer, o que você faz depois de 15 anos de comédia stand up? Como você volta ao mercado de trabalho? Então, eu estava num lugar realmente ruim.

Eu odiava meu ato. Eu estava trabalhando na mesma hora de comédia por 15 anos e era uma bosta. Eu juro! E eu estava trabalhando em lugares como restaurantes chineses. Eu estava, eu fazia um show num restaurante chinês, ninguém nem sabia que um show ia acontecer. Eles estavam lá pra comer e de repente, você lá “hey, todo mundo” e eles ficam, “eu estou comendo, eu nem quero ser forçado a a sentar e, ah…”

Então, eu estava nesse restaurante chamado Kowloon em Boston, Saugus, Massachussetts, sentado no meu carro depois do show me sentindo, tipo, “isso tudo foi um grande erro, eu não sou bom o bastante e eu odeio…” — Eu sentia como se as minhas piadas fossem uma cilada e eu ouvi um CD do George falando sobre comédia, fazendo um workshop, falando sério.

E a coisa que explodia minha cabeça sobre ele é que ele continuava fazendo especiais. Todo ano tinha um novo especial do George Carlin, um novo álbum, eles simplesmente continuavam chegando. E cada um era mais profundo que o outro e eu só pensava “como ele consegue fazer isso?”.

E isso me fez literalmente chorar — que eu nunca conseguiria fazer aquilo. Eu estava fazendo as mesmas piadas por 15 anos.

Então, eu estava ouvindo e perguntaram pra ele, “Como você produz todo esse material?” E eu fiquei, tipo eeeee… Então, eu ouvi e ele disse, “Eu apenas decidi que todo ano eu trabalharia no especial daquele ano. Então eu faço o especial e aí eu jogo o material fora e começo do nada.”

E eu pensei “isso é loucura! Como você joga fora? Eu demorei 15 anos pra construir essa hora de merda. Se eu jogar fora, não me sobra nada!”

Mas ele me deu a coragem de tentar — além do que, eu estava desesperado, o que mais eu poderia fazer? — essa ideia de que você joga tudo fora e começa de novo.

E eu pensei, “é, ok, quando você cansou de fazer piadas sobre aviões e cachorros e você as joga fora, o que sobra?” Você só pode cavar mais fundo, você pode começar a falar sobre, sabe, seus sentimentos e quem você é, então você faz essas piadas e acabou. Você tem que cavar mais fundo, então, você começa a pensar nos seus medos e nos seus pesadelos e faz piadas sobre isso, então, elas acabam e você começa a sentar em cima de umas merdas esquisitas e eventualmente você chega nas suas boas, mas… É um processo que eu vi ele fazendo a minha vida inteira e eu comecei a tentar e pensei, “O que eu — porque ele diz qualquer coisa que queira… o que eu realmente quero dizer que eu tenho medo de dizer?”.


Esse trecho ressoa bastante em mim.

Eu perdi pelo menos dez anos tentando ser perfeito. Quando comecei a tocar, queria muito ser um grande cantor, o melhor compositor, enfim, um gênio. Porém, esse pensamento aliado a um monte de outros enganos, não me ajudou em nada, pelo contrário, foi o catalisador da minha estagnação. Acredito que eu teria chegado a lugares totalmente diferentes se tivesse a bola mais baixa e parasse de ser tão preciosista sobre a minha criação e quem eu achava que era.

Com a minha antiga banda, passamos 6 anos trabalhando praticamente o mesmo repertório. Tocamos por aí, mas nunca fizemos um registro completo e adequado. Nunca deixamos de ser uma promessa, uma possibilidade. E, por mais que me doa o coração admitir, uma promessa não é nada.

Por outro lado, com escrita, acho que tive uma experiência muito mais rica. O fato de eu escrever em um portal como o PapodeHomem, ter projetos com deadlines, não poder virar as costas pras críticas dos leitores nos comentários, ser obrigado a dar feedback, analisando profundamente os textos de outros autores, tudo isso me fez crescer muito.

O trabalho que você tem escrevendo, lançando textos no ritmo como fazemos no PdH, não vale muita coisa depois de uns dois ou três dias. É vento, some.

Claro, eu sei que fica lá para quem buscar e eventualmente se deparar com o texto por causa de algum compartilhamento (e também sei que fazemos um esforço de requentar os textos pelas redes sociais), mas o grosso da vida útil do texto é isso, uns dois ou três dias. E na próxima semana tem mais um monte de material pra produzir.

Parece (e é) bastante cansativo. Mas é assim que se cresce, na minha experiência. Escreva, publique, converse um pouco sobre, ouça as críticas, mas depois de um certo tempo, abandone e comece outra coisa.

Quando faltar assunto, esse é o momento de maior riqueza. É hora de cavar mais fundo.

Como músico, eu passei dez anos até ter coragem de abandonar meu velho material e minha velha autoimagem, para trabalhar em algo novo. Hoje, eu realmente gostaria de ter feito isso antes.

Mas também sei que essa experiência pode ser útil. E é por isso que estou escrevendo esse texto agora.

Não seja como eu. Não perca dez anos da sua vida tentando ser perfeito.


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Esqueça a empolgação, faça um mínimo a cada dia


Você consegue muito mais trabalhando pouco de forma disciplinada do que fazendo muito, seguindo o calor do momento.

Antes, um pouco de contexto.

Olá, meu nome é Luciano e eu me auto-intitulo músico e escritor. Para a maioria das pessoas, eu sou mais escritor que músico, apesar de falar bastante no assunto. O motivo é claro e bem razoável: nunca lancei nada pra valer com a minha assinatura.

Até já soltei algumas músicas avulsas, aqui e ali, alguns vídeos e, se você garimpar bem, talvez até encontre material antigo da minha banda. Nada de mais, é verdade, a maioria material inacabado ou mal feito mesmo.

E é esse o motivo pelo qual costumo dizer que nunca produzi nada, musicalmente falando.

Escrever eu escrevo periodicamente. Toda quarta tem texto aqui no PdH ou no meu Medium. Até tenho a minha coluna sobre música, a Eu Ouvi Pra Você.

Jabá feito, o que pretendo contar é o processo pelo qual passei no último ano, até chegar ao ponto no qual estou agora: finalmente concluindo um EP, com três músicas acabadinhas e criando coragem pra lançar da forma como tem de ser feito.

Então, vamos lá.

Eu queria tanto que ferrava tudo

Música é uma das coisas que mais gosto de fazer na vida. Gosto de tocar com os amigos, de ter uma troca gostosa com as pessoas que ouvem, de sentar a bunda e me isolar do mundo por horas a fio, até ter algo nas mãos. Curto cada parte do processo de formiga que é escrever uma música.

Mas, ao mesmo tempo, eu me considero alguém que entende relativamente bem do assunto. Ou seja, pra mim, não basta tocar, a coisa precisa ser séria. Tem de ser muito bom, acima da média e, se possível, tão bem executado que não possa deixar dúvidas sobre a qualidade final da coisa.

Não preciso ir longe pra mostrar que isso é insustentável e uma armadilha em si. Não dá pra atingir esse nível, principalmente sendo quem sou: um músico de quarto, que faz o que faz nas horas livres.

Eu não sou profissional, não posso dedicar minha vida inteira a isso, nunca tive estudo formal e, basicamente, aprendi o que sei como autodidata. Perfeição é um ideal totalmente fora do meu alcance. E aposto que, de um modo geral, isso pode se aplicar a outras atividades criativas também.

Querer tanto ser bom, só me ferrou esse tempo todo. Eu fui criando mecanismos cada vez mais sutis de me autossabotar pra nunca realmente me colocar à prova. E a maior evidência que tenho disso é que já tem mais de dez anos que faço música e só agora estou dando esse passo: efetivamente colocar algo no mundo.

É clichê, mas aprendi a duras penas: você melhora muito mais errando e mandando mal em público do que sendo o bonzão no segredo do seu quarto. Vale pra música, vale pra vida.

Não perca dez anos até perceber isso.

O que sempre me faltou em tudo na vida: disciplina e paciência

Tocando com os amigos na sede do PdH

Eu me considero alguém que tem muita energia no curto prazo. Costumo me empolgar e fazer certas coisas com bastante ânimo, mas por outro lado, perco a empolgação fácil e desisto.

Então, quando pensava em fazer um disco, por exemplo, eu tirava uma semana de férias e me colocava a compor 24 hrs por dia. No final, até poderia ter alguma coisa escrita, mas garanto que a qualidade era bem duvidosa e o cansaço era enorme.

Extrapole isso pra tudo na minha vida e você pode imaginar o problema. Sim, eu era/sou fogo de palha.

Logo, eu tenho uma lista enorme de projetos, cursos e hábitos começados mas nunca concluídos, além de uma vergonha imensa da quantidade de balela que já prometi por aí e nunca cumpri.

Foi preciso um certo processo (que ainda está em andamento), pra eu começar a não depender desse estirão de energia pra fazer o que planejo. E, se fosse pra elencar uma ideia que estava me consumindo e me desviando do meu foco, essa ideia seria a de que você tem que estar absolutamente empolgado e curtindo qualquer processo no qual você esteja inserido.

Agora, que a maioria das tarefas do projeto do meu EP estão atrás de mim, é fácil colocar isso numa narrativa bonita (como esse texto) e fazer parecer muito glorioso. O fato é que a maior parte do tempo o processo foi tedioso e frustrante, em especial ao ter que lidar com as milhões de limitações de ser um músico solitário sem um monte das condições que poderiam ser chamadas de “mundo ideal” da produção musical.

Diligência é essencial. Nada vai ser perfeito e você vai ter que fazer o que der, do jeito que der. E tudo bem, é melhor seguir em frente.

Faça pouco

Todo esse contexto foi pra poder chegar aqui.

A decisão que mais me fez andar com o projeto foi a de que eu faria uma só coisa por dia, todos os dias, de segunda a sexta.

Pras tarefas mais práticas, isso me fez sair do papel. Fiz principalmente meu site dessa forma. Num dia eu comprei o domínio, no outro, fiz o plano de hospedagem, no outro decidi qual o template, depois escolhi uma fonte… e assim por diante. Claro, não vou conseguir falar de todos os fatores subjetivos disso nesse texto, mas o resultado foi bem empoderador. Em duas semanas, o bicho estava lá.

Outra abordagem que segui, quando cansei dessa e o trabalho se tornou mais subjetivo e difícil, foi de trabalhar uma, no máximo duas horas por dia. Acabou o tempo, parou, hora de descansar. Amanhã é outro dia.

Assim, eu avancei principalmente na parte de produção, quando era o momento de lapidar as músicas, definir arranjos, ouvir opiniões, etc.

Essas duas abordagens também me foram muito úteis em outros momentos e para outras atividades. Comecei a frequentar a academia dessa forma, focando em 15 minutos de esteira por dia. Fiz um exercício de 10 minutos de escrita por 30 dias. Quando pego um livro pra ler (ou algo que preciso aprender), paro 10 minutos antes de dormir por um determinado número de dias.

Acredito que o maior poder dessa forma de trabalhar é que assim você nunca está satisfeito. Você sempre pensa no que poderia ter feito se tivesse mais alguns minutos. O importante é parar e preservar essa dissonância de não ter resolvido a questão, ela provavelmente vai te fazer continuar amanhã.

Você consegue muito mais trabalhando pouco de forma disciplinada do que fazendo muito, seguindo o calor do momento.


Nota: como falei, o meu EP ainda não está concluído, mas já está quase lá. Ainda falta eu me resolver com alguns detalhes e finalizar a parte mais burocrática de registro e prensagem de algumas cópias, coisa que nunca tinha feito antes. Por isso, ainda não tenho o link pra audição, mas gostaria de deixar aqui o convite pra, caso tenha interesse, você me seguir pelo Soundcloud, pelo Facebook ou pelo Instagram. Vou divulgar por lá quando já tiver com o dito cujo pronto.