Motivação e distrações: um texto para quem tem vontade de desistir


O que é motivação, como não perder o ritmo e uma dica contraintuitiva para as horas em que a energia baixar

Quando vamos colocar algum projeto ou objetivo em prática, a motivação tem um papel importantíssimo. Você pode até conseguir se manter em ação por meio do bom e velho “preciso, então vou fazer”, mas estar motivado e acordar com brilho no olho definitivamente tira um peso enorme das costas e torna tudo mais fácil.

Já falamos outras vezes sobre como a disciplina é essencial e, muitas vezes, vai ser a peça chave para continuar o trabalho em dias nos quais a vontade falha. Agora, vamos lançar um olhar um pouco mais detalhado sobre a motivação.

Por que você precisa moldar a sua motivação?

De uma maneira bem simplista, somos atraídos por aquilo que nos dá prazer e nos afastamos do que nos gera dor ou sofrimento.

No entanto, muitas vezes, aquilo que nos atrai não necessariamente é o que vai nos fazer bem. Há muitos prazeres imediatos que, no longo prazo, são responsáveis por minar a nossa capacidade de manter o corpo saudável, o sustento financeiro ou relações positivas. Em outras palavras, são interesses nocivos.

Nem preciso ir muito longe. Redes sociais, pornografia, álcool, açúcar, games… quando esses — ou outros — hábitos atingem um nível no qual se tornam prioridade sobre necessidades mais básicas e urgentes, tornam-se vícios e acabam trazendo mais prejuízos do que benefícios.

Como somos constantemente bombardeados por essas ogivas de prazer imediato, acabamos perdendo a capacidade de nos interessar por atividades que nos causam menos prazer imediato, mas são mais benéficas no longo prazo.

O discurso sobre motivação que tanto ouvimos por aí, de uma certa forma, parte da premissa de que perdemos a capacidade de nos interessar por aquilo que nos é útil ou benéfico, como o desenvolvimento de projetos de longo prazo. Portanto, acabamos precisando saber como moldar nossa energia interna pra se direcionar àquilo que realmente queremos.

Quais tipos de motivação existem?

Basicamente, dois:

  1. Motivação intrínseca
  2. Motivação extrínseca

A motivação intrínseca é quando você consegue tirar energia do fato de que uma determinada ação vai trazer uma recompensa interna como satisfação, alegria e/ou senso de realização. Se você é do tipo que basta saber que fez o bem pra alguém e já fica feliz, você está fazendo uso de aspectos intrínsecos para se motivar.

Agora, se você precisa saber que vai receber um bom salário ou vai ganhar alguma outra coisa em troca pra se mexer, você utiliza de motivação extrínseca.

Ainda falando nesse assunto, elas também podem variar pelo foco de duas formas:

  1. Foco em recompensa
  2. Foco em prevenção

Então, você pode se motivar focando no ganho que vai obter (recompensa) ou em algum tipo de contenção de danos (prevenção), ou seja, evitando que coisas ruins aconteçam.

Um estudo canadense sugere que quando você resolve perseguir um determinado objetivo, a sua motivação tende a variar de foco, dependendo do estágio no qual você está no seu projeto.

Eles conduziram estudos que envolveram participantes tentando atingir determinadas metas como, por exemplo, perder 7kg em um ano ou em alguns meses.

Outros estudos envolveram trabalhar em certas tarefas como resolver problemas matemáticos para acumular uma certa quantidade de pontos.

Em cada teste, eles usaram uma variedade de medidas para descobrir como os participantes estavam abordando seus objetivos. Eles estavam otimistas? Estavam focados mais no progresso que tiveram? Ou em quanto faltava para fazer? Eles focavam em uma visão mais geral do objetivo e no por quê queriam atingir aquilo? Ou em detalhes mais estratégicos, como o que exatamente precisavam fazer?

Segundo os autores do estudo, em estágios iniciais da busca por objetivos, ainda estamos repletos de energia — e com tempo de sobra. Conseguimos ver o tempo à nossa frente como uma vantagem, somos mais otimistas e, portanto, tendemos a nos motivar visualizando a recompensa.

Por outro lado, quando o tempo já está mais escasso e o projeto mais avançado, há uma tendência a olhar as coisas de maneira mais pessimista, então, entra em cena a motivação por prevenção.

Comparar o progresso real com a imagem de onde supostamente deveríamos estar é um fator que gera ansiedade de performance, podendo ser extremamente debilitante para algumas pessoas que acabam desistindo nesse estágio.

Sozinho no mundo, limpando a sujeira de toda a humanidade sem nunca desistir. Eis um exemplo de força de vontade.

Já comentei outras vezes por aqui como me considero uma pessoa bastante fogo de palha e como iniciei milhares de projetos que nunca concluí. A minha experiência é bastante parecida com o demonstrado nessa pesquisa. Quando começo, consigo facilmente visualizar os resultados e como ficaria feliz atingindo aquilo. Mas, com o tempo, à medida que avanço, também é fácil cair em um certo tipo de pessimismo paralisante no qual olho pro meu trabalho e penso como não sou bom o bastante e jamais vou conseguir atingir o nível de excelência que persigo. Assim, acabo caindo em diferentes níveis de preguiça e procrastinação até chegar ao ponto de abandonar o projeto ou começar outra coisa.

Talvez não seja tão fácil simplesmente evitar esses pensamentos. Afinal, se a gente pudesse, apenas não pensaria assim.

Mas, sabendo que funcionamos desse jeito, pelo menos podemos pensar em algumas estratégias para controlar esse impulso e nos preparar para não ficarmos travados no caminho.

Crie uma lista do que não fazer

A importância das listas de tarefas não precisa de nenhuma explicação. Praticamente todos os métodos de organização e produtividade incluem uma variação delas.

No entanto, é mais raro vermos alguém abordando a coisa pela via negativa. Ou seja, ao invés de criar uma lista do que fazer, criar uma lista do que não fazer.

Esse pode ser um meio hábil útil sob a perspectiva de que há inúmeros hábitos que nos travam, não trazem praticamente nenhum resultado positivo. Por exemplo, se o que você quer é praticar guitarra, mas acaba ligando o videogame toda vez. Talvez, você precise de um lembrete para simplesmente não jogar.

Eu, por exemplo, sempre tive um hábito com álcool meio nocivo. Recentemente, ando reconfigurando minha vida inteira para não beber. O resultado é que, devido a estar menos vezes na semana com meu corpo debilitado de ressaca, vem sobrando energia para outras coisas, inclusive escrever, gravar minhas músicas e praticar meus instrumentos.

Vale lembrar também que o nosso tempo é precioso. Sempre que optamos por fazer algo, estamos deixando de fazer outras coisas que podem ser mais importantes para nós e que nos fariam muito mais felizes.

Às vezes, você precisa desse cercadinho, impedindo você de tomar atitudes que possam desviar você do seu propósito e, quem sabe, tirar alguns sonhos do papel.

Quando o pessimismo bater, não estiver acreditando muito no que é capaz de fazer e, portanto, caindo nos padrões de ansiedade e paralisia, pode valer observar quais suas fugas e anotá-las na sua listinha do que não fazer.

Manter a motivação no longo prazo não é uma tarefa fácil, então, é bom estar com o freio preparado para quando você começar a se distanciar do caminho.


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A “Pesadelos Criativos” é o meu diário de trabalho. Aqui eu compartilho conselhos pra mim mesmo sobre os sofrimentos que enfrento quando sento para escrever ou compor.


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Você não precisa de mais disciplina | Pesadelos Criativos #6


Seu reservatório de força de vontade tem um limite e só dura um determinado tempo. Utilize-o com parcimônia.

Eu não vou mentir. Sou um ávido defensor da disciplina.

Realmente acredito que ela, quando bem aplicada, é o melhor caminho para quem está tentando sair da inércia. Afinal, quando você está paralizado e não sabe o que fazer, a solução, em geral, costuma ser simplesmente sair do lugar e fazer algo. O passo seguinte é fazer esse algo de maneira disciplinada, sistemática e direcionada.

Eu até já escrevi um artigo chamado “Cultive Disciplina”, baseado em um outro ótimo texto que traduzimos para o Papo de Homem, o “Foda-se a motivação, o que você precisa é disciplina”.

Há, no entanto, um porém. Todos nós já fizemos mil promessas de ano novo. Frequentar a academia, aprender um instrumento, fazer diários, estudar um idioma. Sabemos como é tentar inserir um novo hábito e falhar.

Quando pensamos nessas pequenas derrotas, aquela voz da culpa costuma sussurrar sibilante. “Você é um fracasso… quando você vai aprender a ser disciplinado?”

Parece que a solução é sempre mais disciplina.

Essa abordagem, com foco em objetivos claros e trabalho sistemático, às vezes ignora uma característica da nossa mente: nossos interesses flutuam muito. Ao longo de um ano tanta coisa acontece, tantas novas prioridades surgem que fica difícil manter o foco em apenas um conjunto de tarefas e hábitos que definimos meses atrás. É extremamente penoso continuar pensando na academia quando as contas estão vencendo, sua mãe fica doente, a firma está falindo e o emprego está por um fio. A realidade da vida é essa, a casa está pegando fogo, então, qual a necessidade de manter-se tomando uma xícara de bulletproof coffee diariamente às 8 da manhã?

Vocês não fazem ideia de como eu adoro esse meme.

É essa exata pergunta que sua mente se faz todas as vezes que você tenta implantar um novo hábito e o mundo segue correndo ao seu redor. Qual é a importância disso aqui, afinal?

Hábitos que não são vistos como importantes, são eliminados automaticamente. Seu corpo cria defesas contra eles. Você de repente não consegue levantar da cama a tempo, sente sono ou fome ou sede ou prefere ligar o Xbox a realizar aquele velho sonho de aprender a tocar guitarra. Até questões mais essenciais como ir ao trabalho acabam caindo nesse padrão.

Em um determinado momento, saber que aquilo é importante não basta mais e a disciplina desaparece totalmente em um fosso escuro e vazio.

Ainda que em boas condições de pressão e temperatura, quando tudo está bem para você, manter-se focado é extremamente desgastante. Basta observar como dificilmente passamos de algumas semanas tentando implantar um novo hábito. Em geral, tendemos a um certo patamar, tanto no objeto do foco da nossa mente como no nosso nível de disciplina. Chega um determinado ponto no qual você não consegue mais manter o elevado consumo de energia que aumentar o foco toma.

Em termos de esforço mental, a situação seria semelhante a correr uma maratona eterna. Quando temos uma linha de chegada clara, podemos nos consolar contando quanto ainda falta para terminar. Porém, da maneira usual como tratamos a questão, não temos esse recurso. A vontade é de desistir, afinal, qual o ponto? Sofrer para sempre?

Nesse sentido, determinar sprints de disciplina pode ser uma abordagem mais efetiva. Ao invés de tentar ser disciplinado para sempre, você pode determinar um prazo factível mais ou menos curto (estipular um ano inteiro tem grandes chances de cair na seara da maratona eterna). Assim, você mantém a energia em alta até o fim do processo, pode determinar um descanso e então tenta mais uma vez. Eu aprendi que sprints de um mês funcionam bem pra mim, por exemplo.

Essa abordagem também é positiva em caso de deslizes. Afinal, seu processo está decupado em pequenos períodos, assim, quando inicia-se um novo mês, você já pode reiniciar sua tentativa de cumprir seu objetivo.

Além disso, não adianta tentar ser disciplinado em tudo ao mesmo tempo. Quanto mais rígida a sua agenda e quanto mais apertado for o seu cronograma, mais energia você consome. Há, claro, diferentes níveis de conforto, dependendo do desenvolvimento do foco de atenção de cada um. Porém, isso não muda o fato de que todos nós temos uma quantidade limitada de energia para aplicar.

Nesse ponto, acredito que o aspecto da motivação torna-se essencial, não como motor, mas como crivo. Sentindo em seus ossos exatamente para onde você quer caminhar, fica mais fácil determinar o que não fazer. Assim, você guarda espaço mental e energia para o que realmente importa.

Em geral, não precisamos de mais disciplina do que já temos. Acordamos todos os dias, tomamos decisões e repetimos ações com pouquíssimo esforço. Porém, muito do que fazemos não está alinhado com o que aspiramos de verdade.

A vida é repleta de possibilidades. Infinitas.

A tentação de fazer tudo, tentar tudo, é grande. Afinal, temos mil ferramentas ao alcance da mão que nos mostram o quanto todo mundo está criando mil projetos melhores que os nossos, aproveitando a vida muito mais do que nós, tendo experiências que nunca teremos e que estamos sendo idiotas ao perdê-las. Mas é impossível vencer essa corrida de ratos. Não dá.

Tendo um foco claro, ou seja, uma motivação bem delineada, é possível escolher para onde direcionar a sua disciplina o suficiente para tornar algo possível, sem esforços extenuantes que, lá na frente, vão minar a sua força de vontade e mais atrapalhar do que ajudar.

Portanto, quando falo em afrouxar as rédeas da disciplina, não quero dizer pra você largar tudo e seguir mudando de foco ao sabor de qualquer vontade que surgir. Não ser capaz de fazer aquilo que faz bem para si próprio e para os outros é, também, um tipo de prisão. Disciplina, em última instância, é uma ferramenta de libertação. Afinal, quer mais liberdade do que ser capaz de determinar algo para si e conseguir ultrapassar a limitação dos próprios impulsos em prol de um objetivo ou benefício maior?

O que eu sugiro, sim, é utilizar a quantidade de disciplina que você já possui, de maneira inteligente, o suficiente para atingir uma linha de chegada específica e durante um tempo limitado. Mas mais do que isso, sugiro um pouco de carinho consigo mesmo. Você tem limitações que transcendem o pensamento objetivo. Não importa o quanto esteja determinado, o corpo pede descanso, boa comida, bom sono, boas relações, afeto, etc.

Há certas coisas que não precisam ter dia e hora para começar e acabar. Às vezes, tudo o que você vai precisar é de uma tarde relaxando, jogando o seu videogame e vendo um filme com quem você ama.

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Fagner me faz sofrer

E aí, vc resolve estudar e analisar umas composições brasileiras, né? E, putz, muita coisa linda.

Mas é que de repente, pipocou Fagner aqui. E, me desculpa, tá pra aparecer alguém que escreva algo tão potente quanto “Ah, coração alado, desfolharei meus olhos neste escuro véu.”

Primeiro que ele canta de um jeito que quando você menos espera, tá procurando cachaça na despensa e já com o olho meio marejado, lembrando da @ desgraçada.

E aí vem:

“Desfolharei meus olhos”. “Escuro véu”.

Depois ele manda um “não acredito mais no fogo ingênuo da paixão”.

Eu te entendo, Fagner.

Toma mais um gole e pega um lenço.

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Suas limitações são sua maior qualidade | Pesadelos Criativos #5


Não vou mentir, às vezes a vida parece um beco sem saída.

Você pode estar aí, pensando em todo o potencial transformador para a sociedade das ideias que tem dentro de si, mas não consegue disponibilizar do tempo, não possui as ferramentas ou até mesmo as habilidades para tal.

No final, você se torna mais um artista vivendo aprisionado em frente à tela de um computador, consumindo seus dias trancado em um escritório.

Não é fácil, todo mundo tem que pagar as contas.

A verdade, porém, é que há uma chance considerável de você nunca atingir as condições que considera ideais e minimamente necessárias para arrancar do peito as pretensas ideias geniais que tem.

Gosto muito desse vídeo que embedei aqui em cima, pois ele expõe uma verdade que raramente fica evidente quando olhamos os artistas ou profissionais que admiramos.

No começo, mesmo que tenha todas as ferramentas dos sonhos, suas habilidades provavelmente não vão responder da forma como imagina. Seu texto, música, pintura ou seja-lá-o-que-for, vai estar aquém do seu padrão de consumo.

Ainda que você tenha todo o bom gosto do mundo, é preciso trabalho. Você tem de partir de algum ponto e esse ponto sempre vai ser onde você está agora.

Nesse caso, sobra trabalhar com o que você tem.

A boa notícia é que as soluções criativas surgem a partir das limitações.

Aqui acho que vale contar uma história.

Durante a produção do meu primeiro — e até o momento único — EP e até pouquíssimo tempo atrás, minha perspectiva do “mundo ideal” era ter ao meu lado músicos muito bons que estivessem tão engajados quanto eu em criar e tocar, dispostos a sacrificar tempo e dinheiro pra fazer o projeto acontecer.

Desde que minha antiga banda se desmontou e eu me mudei para São Paulo, passei anos procurando reunir essa condição. Eu tinha em mente, entre outras coisas, que tê-los por perto compensaria minhas limitações e traria um brilho que eu, sozinho, achava que não conseguiria atingir.

Então, comecei a produzir material por conta própria. Sim, incentivado por alguns amigos muito generosos que dispuseram do seu tempo para me ajudar. Ainda assim, longe da dedicação que eu julgava necessária, afinal, todos tinham suas vidas e próprias prioridades (e tudo bem, claro).

Isso me frustrava bastante, era um freio. Assim, acabei seguindo com o projeto por conta, adquirindo novas habilidades no caminho, como arranhar um teclado ou arriscar linhas de baixo.

O maior problema é que, ao final, eu sentia a coisa toda de maneira bem negativa, como se eu estivesse aquém do meu potencial. Eu achava mesmo que ser um cara que fazia tudo sozinho era ruim, algo do que me envergonhar.

Então, em algum momento, decidi não mais tentar compensar pela falta de estrutura ou de outros músicos. Assim, comecei a tentar desenvolver as habilidades centrais no que faço (voz e violão) e, também, as habilidades paralelas importantes (banjo, teclado e até um pouco de percussão).

Com o tempo, percebi que eu não precisava, por exemplo, de um baterista para gravar. Eu poderia, perfeitamente, utilizar-me do que disponho, como um stompbox para o bumbo, em conjunto com MIDI e chegar em um resultado bastante convincente, desde que não tente recriar uma condição não-presente. Assim, ao invés de ter algo feito pelo computador que vai soar fake e, portanto, fora de lugar, posso me aproveitar do fato de ter que escrever linhas mais simples usando bumbo, pandeiro, outros tambores (e até às vezes batucando o próprio violão) e usar isso a meu favor. O que, antes, era uma limitação, transforma-se em uma característica, uma qualidade do meu som.

De repente, as linhas simples que eu criava e que me faziam sentir diminuído, passaram a ser algo que abracei e do que me orgulho.

O lado mais bizarro da coisa é que, lá no fundo, eu sabia disso. Eu já tinha lido a respeito, já ouvi outras pessoas me dizerem coisas parecidas.

Porém, existe uma enorme diferença entre algo que você apenas sabe e algo que você viveu, que compreendeu tridimensionalmente. Quando você realmente entende algo, aquilo tem ressonância, ativa não só uma linha lógica mas preenche o seu espaço mental completamente, passa a fazer parte de você de uma maneira não-linear.

Então, vamos ao ponto: qualquer que seja a sua condição agora, ela é o que te destaca, o que faz de você quem você é.

Pra mim, não mudou praticamente nada. Eu continuo fazendo música sozinho. No entanto, a mera perspectiva de deixar de ter vergonha do meu caminho e das minhas condições passou a me dar energia.

No momento em que escrevo, já tenho todo um plano para 2018 engatilhado, um punhado de composições prontas, outras meio caminho andadas. Finalmente consigo vislumbrar uma rotina de trabalho, mesmo sozinho, sem me sentir menor por isso. Aliás, venho gostando, curtindo esse jeito de produzir.

Um dos motivos pelos quais decidi iniciar essa coluna era pra mapear bloqueios criativos e vieses que me impediam de avançar como músico, escritor e artista.

Pode não parecer, mas não existe uma coisa que define bloqueio sob a perspectiva da criatividade. Há inúmeros tipos de bloqueios que crescem e se multiplicam como pragas. Podem ser impedimentos físicos, palpáveis e dolorosos, como falta de tempo e dinheiro, ou ervas daninhas da mente que você precisa descobrir como arrancar. A sorte é que, da mesma maneira, há infinitas formas de se contornar essas dificuldades.

A pergunta chave não é só o “como”, mas o “o que” você pode fazer, utilizando suas limitações de maneira criativa. Às vezes, o que você acha que é um bloqueio, na verdade é a própria estrada que você tem que percorrer, aberta à sua frente.


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A estranha sensação de tentar tirar de dentro algo que você não tem | Pesadelos Criativos #4


Um dos estágios do sofrimento criativo é odiar seu próprio trabalho.

Não é só o desprezo de quem viu algo que não gostou. É ódio. É reconhecer-se responsável por algo ridículo, detestável, deplorável. Algo que vai levar meia dúzia de pessoas a uma perda de tempo irrecuperável.

Você percebe, então, que depois das pessoas enxergarem a sua criação, o olhar de decepção tende a se direcionar ao autor. Sim, você. O incapaz.

Talvez você seja tomado por uma vontade irrefreável de se aperfeiçoar, tornar-se o melhor no que você faz. Talvez, não. São grandes as chances de você enxergar uma muralha que cresce rumo ao infinito.

E, com essa visão, uma constatação: talvez você não tenha nem o talento e nem o estudo pra ser um artista, escritor, músico, poeta… Será que você é só… ruim?

Após muito martelar os arranjos de uma música, tentando aplicar o que falei no meu último artigo sobre encontrar algo que soasse novo, tive uma espécie de mini-burnout. Pânico. A famosa vontade de dar com a cabeça no teclado do computador.

Eu não conseguia encontrar essa coisa e o que eu enxergava como a solução era algo que eu simplesmente não conseguia reproduzir.

Assim, minha mente foi cruzada por essa pergunta. Será que eu não tenho o que é preciso?

Podia ser verdade. Podia mesmo.

Era aterrorizante.

Não há como explicar a sensação de ter vontade real de desistir mesmo da pequena aspiração de ser bom em algo que gosta. Não pela decepção de não se ver atingindo o patamar de certos delírios de grandeza, fama, fortuna, mas por não se ver nem como minimamente capaz.

Você não tem o que precisa.

A frase martelava.

E eu desisti.

Agora chega, eu não vou conseguir. É isso.

Fim.

Fui fuçar o Youtube e ouvir os caras que eu admiro. Assisti alguns shows, pra babar o talento que eu não tenho.

Minha cabeça não parava. Eles são bons, você não.

Talvez a sua ideia seja ruim. Deixa pra lá.

Até que lá estava. Tropecei em um vídeo no qual um guitarrista fazia a exata coisa que eu queria. Por acaso, a câmera dava um close na mão dele e eu finalmente encontrei o que estava procurando.

Eu, que sou avesso a isso, finalmente entendi o significado da palavra “serendipidade”.

O que fazer quando a inspiração não vem de jeito nenhum?

Ou quando você acha que não tem as habilidades?

Talvez, seja a hora de contar um pouco com o acaso.

Não completamente, na verdade. Você trabalhou, pesquisou, quebrou a cabeça até surtar, até chegar ao limite de desistir. Esse trabalho não se perde quando você para um pouco.

Mesmo sem acreditar que chegou a algum resultado expressivo, esse esforço abre um olhar. Você procura algo, criou alguma base. Caso encontre esse algo ou outro efeito interessante, você vai saber. Você está pronto pra ver.

De uma certa forma, esse poder do acaso começa com disciplina, estudo, paciência — e, nesse caso, a perda dela também.

Então, se falta comer muito feijão com arroz pra ter o que precisa, chegou a hora de começar a pedir PF.


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É melhor ser novo do que ser bom | Pesadelos criativos #3


Todo mundo sabe a sensação de colocar uma música pra tocar e ter aquela rejeição, vontade de pular a faixa ou de desligar o som.

Quando você é o artista em questão, então, posso afirmar que é pior ainda. A última coisa que você quer é que alguém faça isso com seu material.

Como escritor, compositor e artista, meu maior objetivo, certamente, é fazer algo bom.

Fodido de bom.

Pra isso, junto o máximo de referências que posso, estudo, compro material e dedico muito, mas muito tempo.

Se você tem alguma ambição criativa, seja na profissão ou mesmo como hobby, talvez se identifique com essa ansiedade.

Eu fui por muito tempo um cara que tendia a repudiar novidades que soassem como modinha pra mim.

Passei um período bitolado em apenas um tipo de música, achando que ela e apenas ela era a melhor e todo o resto era horrível e deveria soar mais como aquilo. Esse padrão se repetia em outros interesses também. Cinema, livros… pode escolher.

Errei feio e rude por muito tempo. Perdi tanta coisa que hoje olho e penso no quanto de riqueza temos ao nosso redor mas acabamos não aproveitando, dominados por preciosismo quanto a formas feitas em décadas passadas.

Agora, estou em um momento no qual eu preciso tirar coelhos da cartola, compondo e produzindo. Eu entro em uma pilha autocrítica e preciso me esforçar bastante para aceitar meu material e achá-lo pelo menos “publicável”, seja texto ou música.

Falando especificamente das minhas músicas, elas às vezes não me parecem interessantes o bastante. É como se soassem corretas, no lugar, mas não necessariamente capazes de despertar curiosidade, de fazer você levantar o ouvido e querer saber o que vai acontecer. Estar nesse ponto é algo que vira uma espiral. Suas ideias parecem cada vez mais cansativas à medida que você tenta trabalhá-las e aí a lama só fica mais densa.

Eu acredito bastante que compreender a técnica ajuda a tirar ideias do papel e tornam você capaz de realizar, produzir mais. Porém, ultimamente venho me deparando com os limites de (tentar) ser apenas bom.

Em primeiro lugar, “bom” é algo completamente subjetivo. Não há formas corretas de fazer praticamente nada nessa vida. O que nós queremos é algo que funcione. Se um texto prendeu, entreteve, levou você a refletir e gerou algum impacto, então não importa se ele tem erros gramaticais ou não. A mensagem chegou, ele fez o seu papel.

Claro, escrever “certo” ajuda. Mas o mundo está cheio de escritores que cagam pro que é esperado, imprimindo ritmos, formas e imagens pouco usuais o tempo inteiro.

No Papo de Homem, um dos meus autores favoritos é o João Baldi Jr, justamente pela forma diferente com a qual ele escreve seus artigos. Além do humor, ele encadeia frases e vai colocando subcomentários de uma forma que pode parecer distração mas que no caso dele gera camadas e mais camadas de ironia e sarcasmo, como se tivessem sido tiradas de um roteiro de Friends. É sensacional.

Usei aqui o exemplo do texto, mas o raciocínio pode se estender a outras formas de arte e entretenimento também.

Na pintura, Picasso primeiro compreendeu a técnica com perfeição. Os trabalhos do começo da sua carreira são o que nós (ainda mais nesses tempos meio esquisitos) jamais abriríamos a boca para apontar um defeito.

Retrato da mãe de Picasso, feito por ele em 1896.

Porém, Picasso é lembrado muito mais pelos seus trabalhos mais tardios, suas explorações com o cubismo e sua personalidade exótica.

Mas é da Guernica que todo mundo lembra.

Nós ficamos intrigados pelo que é novo, único. Quando nos deparamos com algo inusitado, não conseguimos evitar o interesse, queremos resolver a dissonância cognitiva gerada por aquilo.

Pode observar, temos uma indústria de entretenimento inteira baseada nisso. Jornais, redes sociais… eles literalmente fazem a vida arremessando novidades em nós e nos mantendo presos.

Aqui vem o conselho pra mim mesmo: quando estiver criando ou finalizando algo, coloque na mistura pelo menos um elemento intrigante, algo que adicione frescor, que fuja do óbvio e soe novo, diferente. Tenha sempre na manga aquele tempero especial, uma pimenta, algo que sirva para manter o interesse operando. Uma disrupção no ritmo, um silêncio, algo que quebre a expectativa.

Não é preciso muita coisa. Você não precisa também exagerar ao ponto de parecer completamente fora de lugar.

O “segredo” está em criar misturas e texturas que aticem a curiosidade e prendam a atenção. Não precisa fazer escândalo. Na verdade, se exagerar, você corre o risco de assustar ao invés de atrair. O que também não é nenhum problema, vai depender do que você está tentando fazer.

Mas evite o lugar comum.

A questão é que se você está fazendo tudo certo e o resultado está bom, as chances são grandes de que você está justamente oferecendo mais do mesmo.

“Bom” é, muitas vezes, só um outro nome pra “comum”.


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“Para quando eu esquecer”

Acabei de encontrar uma nota perdida.

Para quando eu esquecer

Às vezes o mundo é tomado por uma onda de negatividade e tudo o que parece ser o seu pior pesadelo predomina. Nesses momentos é fácil esquecer que não há vilões e que todo mundo acredita que está fazendo o melhor dentro das suas possibilidades . Mesmo quem agride e xinga está defendendo você de algo mas não sabe outra forma de fazê-lo. Esse texto é pra eu não esquecer que a natureza primordial de todos os seres é de pura bondade.”

Não tem data, mas obrigado, Luciano do passado. Veio em boa hora.

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Cansei de fingir que não sou um bosta | Pesadelos criativos #2


Quando eu estava na escola, era um preguiçoso. Odiava a aula de educação física tanto quanto quase todas as outras e, por isso, não pensava duas vezes antes de faltar às aulas.

Eu não era asmático, nem tinha nenhuma lesão que inviabilizava a prática. Não tinha nada de errado comigo. Como diria minha avó, era sem-vergonhice mesmo.

É só que era bem melhor passar um tempo com alguém pelos corredores, jogando conversa fora.

No mundo real algumas coisas são bem matemáticas. Eu reprovei.

Em um último suspiro de esperança, decidi falar com a professora, que não era das mais simpáticas. A ideia era perguntar se ela poderia me aprovar se eu prometesse ser mais aplicado no ano seguinte (como pode, né?). Óbvio, ela negou com a maior expressão de desprezo do universo. Eu suspirei o longo suspiro dos desesperados e desiludidos.

Enquanto entrava no carro, mal humorada por ser seguida por um mirrado Luciano adolescente, ela soltou algo que eu nunca esqueci:

“Esse suspiro é pra aprender que você não é diferente de ninguém.”

Doeu.

Muitos anos estão pra trás em relação a essa história. Acredite, ou não, ainda é difícil confessar, mas há um motivo muito claro pra eu ter me guiado a esse final.

Eu era péssimo na educaçao física. Pequeno, magrelo, desajeitado. Óbvio que eu preferia fazer mil outras coisas nas quais era melhor, como jogar conversa fora.

Mais tarde, comecei a cantar em uma banda. Eu era muito ruim, mas basicamente, música foi a primeira coisa que gostava tanto de fazer ao ponto de continuar mesmo mandando muito mal. Mas isso não quer dizer que os comentários não doessem. Eu estava sempre pronto a debater ou a dar alguma desculpa. O som estava ruim, não tivemos ensaio, alguém adoeceu, quebrei a perna… esse tipo de coisa.

Depois, comecei a escrever no Papo de Homem. Tem algo que só publicar online proporciona: o primeiro texto no qual você é rechaçado em praça pública. Não importa quão forte ou inteligente pense ser, você não vence a internet. Você apanha tanto que em algum ponto percebe que é melhor parar de lutar.

Por causa desse tipo de situação há quem desista de vez de escrever.

Há quem siga em frente, como foi o meu caso.

Não foi exatamente fácil ou rápido, mas em algum ponto tive um insight.

Quando queremos conseguir algo, ao invés de tentar criar as condições para que aquilo aconteça, nós começamos a pensar em como podemos convencer a outra pessoa de que somos merecedores de algo que, na verdade, não somos.

Pelo menos comigo esse foi um padrão que se repetiu durante muito tempo.

Depois de repetidas mancadas, precisei abaixar minha bola e aprender a argumentar melhor, escrever textos que já contemplassem desdobramentos e confusões inesperadas. Depois, meus artigos começaram a dar sono, então, tive de descobrir como fazer pra ter um mínimo de mojo. E assim seguimos no processo de aperfeiçoar o ofício.

Musicalmente, eu tinha uma tendência a me esconder. Demorei muito tempo até lançar meu primeiro EP. Demorei a voltar a tocar. Demorei.

Mas eu queria ser um músico. Assim, como não existe pintor sem quadro, eu precisei colocar a mão na massa. Fiz aulas de canto, assisti umas videoaulas na internet, aprendi a mixar minhas próprias canções, comprei equipamento e tudo o mais que envolve a atividade. Agora, o desafio é sentar a bunda e suar a camisa.

O que eu mais vejo hoje é um ambiente no qual é extremamente difícil de se permanecer. Estou generalizando, claro, mas seja na internet ou presencialmente, as pessoas acham que sabem demais de tudo e estão pouco propensas a ouvir, mudar caminhos e de alguma forma realmente aperfeiçoarem aquilo que fazem.

O mais comum é uma defesa cega de pontos de vista que muitas vezes sequer têm algum fundamento. É como se todos estivessem escondendo suas fraquezas e dúvidas com tanta força que mordem ao menor sinal de ameaça.

Só de pensar no trabalho que isso dá já fico esbaforido.

Eu demoro pra criar, preciso pesquisar, encontrar referências, quebrar a cabeça. Frequentemente tenho brancos e vivencio pesadelos com meus fracassos. Suo frio de pensar em me situar fora das minhas pequenas certezas.

Atualmente, partir do princípio de que eu de fato não sei, que preciso estudar e pensar melhor antes de partir pra ação tem tornado tudo bem mais leve.

E, na boa, cansei de fingir que não sou um bosta.

Eu não sou tão bom assim. Eu não sou diferente.

Agora é a hora de trabalhar com o que tenho.


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A “Pesadelos Criativos” é o meu diário de trabalho. Aqui eu compartilho conselhos pra mim mesmo sobre os sofrimentos que enfrento quando sento para escrever ou compor.


Ouça meu single Entrega

Acabei de lançar um single chamado Entrega. Se quiser me fazer feliz, não economize nas palmas aqui embaixo mas também ouça minhas músicas, deixe um recado, siga meu Instagram ou no Spotify. Assim eu garanto que você faz o meu dia. 🙂

Não consigo terminar o que começo | Pesadelos Criativos #1


Mais uma tarde de trabalho. O sol forte entrando pela janela, pego o violão, arranho o caderno com a caneta. Alguns versos. Alguns acordes. Mudo de ideia, tento outra coisa e… nada.

Às vezes caio nesse buraco.

Quero criar algo, uma música ou texto. Então, meio sem saber para onde ir, rabisco vários fragmentos que não chegam a lugar nenhum. Tento o primeiro, o segundo, o terceiro… quando dou por mim, passou-se um dia, uma semana.

Já cheguei a ficar meses assim.

Algumas vezes, claro, essa situação vai desembocar em algo bem interessante. Afinal, você tentou mover o moinho das ideias, certamente, em algum momento esse monte de retalhos acaba fazendo sentido e se unindo em algo que lembra uma colcha um pouco mais coerente.

Mas não podemos confiar apenas na sorte de, lá na frente, encontrar um caminho que faça sentido.

O que eu faço quando percebo que estou assim? Concluo mesmo as ideias ruins.

Claro, há diferentes abordagens, mas eu tendo a pensar que concluir mais ideias é melhor, especialmente para quem ainda está começando e precisa reunir repertório. Quando você termina uma ideia, ganha mais experiência.

Você só é tão bom quanto já é agora. Não adianta martelar infinitamente um mesmo texto ou música, o que você tem é o que está lá. Quando conclui e parte pra outra, você dá espaço a si mesmo para estudar, reunir novas referências, aumentar seu repertório e, ao se exercitar com mais frequência, progredir mais rápido.

Bloqueios criativos são uma praga bem poderosa, especialmente para quem é muito perfeccionista. Você olha e pensa em mil formas de aperfeiçoar algo que está fazendo. Porém, muitas vezes, essas ideias não estão tão claras assim, afinal, se estivessem, você simplesmente faria aquilo que pensou.

Já ouvi chamarem isso de paralisia de análise. Ou seja, um tipo de ansiedade que surge quando o processo está em um certo ponto e você acha que não está bom o suficiente para ser considerado terminado e, então, fica ali em cima pensando, analisando, tentando achar uma saída. O bom e velho overthinking.

Quando tudo trava, é melhor respirar fundo, aprender a passar por cima disso e fazer o que for necessário para ter o seu melhor no momento. É mais importante ter algo rolando do que ficar esperando pelo mundo ideal milagrosamente se manifestar na sua frente.

Tudo o que começar, termine. Uma ideia pela metade dificilmente vale alguma coisa, mesmo que esteja guardada na sua gaveta para, por milagre, ser usada posteriormente, quando encontrar seu lugar.

Já uma ideia completa pode ser reaproveitada, unida a outras, até mesmo separada em várias menores… no mínimo, é algo que você compreendeu e levou a cabo.

Quando você termina algo, isso vira um tipo de experiência muito útil, que é a de pensar até o fim, de saber onde vai, o porquê de ir até certo ponto e, claro, também saber a hora de parar.

Quando terminar, se achar que está horrível, jogue fora, sem piedade.

Mas termine.

Você ganha muito mais concluindo uma variedade de ideias do que lapidando uma só à exaustão. Pode confiar.


A “Pesadelos Criativos” é o meu diário de trabalho. Aqui eu compartilho conselhos pra mim mesmo sobre os sofrimentos que enfrento quando sento para escrever ou compor. Se quiser acompanhar minha rotina é só clicar no follow.


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Estou mais analógico que nunca


Ok, não mais do que nunca, óbvio. Ninguém aqui se mudou pra uma cabana no meio do mato.

Mas acho que vale compartilhar essa história.

Quando eu era criança minha família colocou na sala um computador desktop que chamou minha atenção e, desde então, nunca mais abandonei essas máquinas. A minha é a história de muita gente.

Aprendi música com um programa que editava arquivos MIDI e exibia os sons em uma partitura. Depois, comecei a gravar minhas próprias canções em casa. Meus desenhos, que antes eram feitos no papel, foram passados para o Photoshop e eu alcancei resultados que nunca conseguiria antes. Hoje, mesmo esse texto, eu escrevo direto no navegador.

Eu aprendi a cozinhar na internet. Fiz amigos. Até mesmo o meu atual trabalho, como editor no PdH, eu devo aos computadores e à maravilhosa rede mundial de computadores.

A união do digital com o acesso à internet teve um impacto profundo em como executo minhas tarefas e me relaciono com as pessoas, a cidade e até com a minha alimentação. Eu sei que nunca vou voltar a ser como antes. Simplesmente não dá.

Os smartphones, em especial, foram um passo além que tornaram tudo ainda mais fácil. Não importa onde eu esteja, toda a informação de que eu preciso está ali.

Porém, junto com as redes sociais, eles trouxeram — pra minha vida, que fique claro — uma camada a mais de ansiedade com a qual vem se tornando difícil de lidar. Quando acontece algo importante na política ou no mundo, acabo acompanhando de forma frenética, obsessiva. Ao acordar, se caio no deslize de rolar a TL, chego a perder horas do dia como se estivesse bebendo água do mar pra matar a sede. Quando vejo, estou numa condição que começou a me preocupar. Agitado, inquieto, preocupado, mal humorado, reativo.

Quando notei a relação entre minha má saúde emocional e a forma como vinha usando redes sociais e smartphone, passei a sentir aversão. Eu comecei a não gostar, a querer me afastar do computador e das telas.

Comecei a ter dificuldade em escrever, pensando em toda a toxicidade dos comentários, até cheguei a soltar alguns textos anônimos, só pra não ver essas reações vinculadas a mim.

Paralelamente, imergi no universo da música folk, como parte dos meus estudos, buscando referências pra criar. Ouvindo artistas, vendo vídeos (sim, essa eu devo ao Youtube), fiquei absorvido por aquele universo idílico. Tocando meu violão, sentindo a madeira, as características que só o som acústico possui, acho que fui picado por um bicho.

Então, tive um estalo e comecei a pensar em alternativas para meu problema de concentração.

Primeiro, comprei um pequeno timer de cozinha, com um tomatinho, pra fazer meu método Pomodoro. Assim, eu não precisaria deixar o celular na mesa contando o tempo enquanto estivesse trabalhando.

Percebi que eu me distraia também quando ia abrir o Todoist e o Trello pra checar minhas tarefas. Então, abandonei todos os sistemas digitais de gerenciamento de tarefas. Comprei um caderno e estou usando a boa e velha caneta.

Agora tenho de novo um relógio com despertador.

Passei a evitar artigos na internet e a considerar mais os livros impressos como fonte.

E, claro… estou mais do que nunca, absorvido por instrumentos acústicos.

A ideia tem sido diminuir minha dependência e o risco de cair em tentação ao colocar o celular na mão ou mantê-lo por perto. Sem radicalismos, mas também sem ser condescendente demais.

Nos últimos meses, um pouco mais afastado de todo esse reboliço digital, venho em uma empreitada artística mais sistemática. Acordo todos os dias, trabalho e, em casa, dedico de duas a três horas aos afazeres musicais.

Mais recentemente, tenho voltado a nutrir hábitos um pouco mais saudáveis e até noto que meu tempo se esticou. Acordo cedo, sento, começo e termino algo.

Não é milagre. Em algum momento eu vou encontrar alguma outra confusão que vai me colocar naquele velho estado mental ansioso e reativo.

Mas é bom compartilhar essa ideia e, quem sabe, trocar um pouco a respeito.

Você tem tentado alguma coisa assim? Gostaria de experimentar também?

Daqui, tem sido bem interessante, mais produtivo, porém principalmente mais saudável seguir dessa forma.


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