A estranha sensação de tentar tirar de dentro algo que você não tem | Pesadelos Criativos #4


Um dos estágios do sofrimento criativo é odiar seu próprio trabalho.

Não é só o desprezo de quem viu algo que não gostou. É ódio. É reconhecer-se responsável por algo ridículo, detestável, deplorável. Algo que vai levar meia dúzia de pessoas a uma perda de tempo irrecuperável.

Você percebe, então, que depois das pessoas enxergarem a sua criação, o olhar de decepção tende a se direcionar ao autor. Sim, você. O incapaz.

Talvez você seja tomado por uma vontade irrefreável de se aperfeiçoar, tornar-se o melhor no que você faz. Talvez, não. São grandes as chances de você enxergar uma muralha que cresce rumo ao infinito.

E, com essa visão, uma constatação: talvez você não tenha nem o talento e nem o estudo pra ser um artista, escritor, músico, poeta… Será que você é só… ruim?

Após muito martelar os arranjos de uma música, tentando aplicar o que falei no meu último artigo sobre encontrar algo que soasse novo, tive uma espécie de mini-burnout. Pânico. A famosa vontade de dar com a cabeça no teclado do computador.

Eu não conseguia encontrar essa coisa e o que eu enxergava como a solução era algo que eu simplesmente não conseguia reproduzir.

Assim, minha mente foi cruzada por essa pergunta. Será que eu não tenho o que é preciso?

Podia ser verdade. Podia mesmo.

Era aterrorizante.

Não há como explicar a sensação de ter vontade real de desistir mesmo da pequena aspiração de ser bom em algo que gosta. Não pela decepção de não se ver atingindo o patamar de certos delírios de grandeza, fama, fortuna, mas por não se ver nem como minimamente capaz.

Você não tem o que precisa.

A frase martelava.

E eu desisti.

Agora chega, eu não vou conseguir. É isso.

Fim.

Fui fuçar o Youtube e ouvir os caras que eu admiro. Assisti alguns shows, pra babar o talento que eu não tenho.

Minha cabeça não parava. Eles são bons, você não.

Talvez a sua ideia seja ruim. Deixa pra lá.

Até que lá estava. Tropecei em um vídeo no qual um guitarrista fazia a exata coisa que eu queria. Por acaso, a câmera dava um close na mão dele e eu finalmente encontrei o que estava procurando.

Eu, que sou avesso a isso, finalmente entendi o significado da palavra “serendipidade”.

O que fazer quando a inspiração não vem de jeito nenhum?

Ou quando você acha que não tem as habilidades?

Talvez, seja a hora de contar um pouco com o acaso.

Não completamente, na verdade. Você trabalhou, pesquisou, quebrou a cabeça até surtar, até chegar ao limite de desistir. Esse trabalho não se perde quando você para um pouco.

Mesmo sem acreditar que chegou a algum resultado expressivo, esse esforço abre um olhar. Você procura algo, criou alguma base. Caso encontre esse algo ou outro efeito interessante, você vai saber. Você está pronto pra ver.

De uma certa forma, esse poder do acaso começa com disciplina, estudo, paciência — e, nesse caso, a perda dela também.

Então, se falta comer muito feijão com arroz pra ter o que precisa, chegou a hora de começar a pedir PF.


A “Pesadelos Criativos” é o meu diário de trabalho. Aqui eu compartilho conselhos pra mim mesmo sobre os sofrimentos que enfrento quando sento para escrever ou compor.

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